quarta-feira, janeiro 31, 2007

Dicotomia

Tua mão me dizia pra ficar tranqüila
Que você logo me abraçaria.
Tua boca me olhava,
Teu olhar mordia.
E eu desejei ser só alma
Alma que sente tudo com calma, sem euforia
-Porque o corpo nessas horas só atrapalha -
Mas minha alminha penada no corpo gemia.
Teu corpo, com a alma de fora,
Minh'alma e corpo invadia.
E eu olhava calada,
Enquanto teu corpo sorria.

E no meio dessas coisas do outro mundo
Teu corpo parecia estar no paraíso,
O céu particular que há pras coisas de corpo.

Então fiquei ali, na terra,
Almejando
Lavar minha alma com água nova
Pra, quem sabe, ela voltar ao corpo

Que jazia.

Snow.
Desa(l)mada.

domingo, janeiro 28, 2007

De idade

Curiosamente os mais velhos - e é provável q, apenas os nordestinos - têm o costume de tratar outros mais velhos de "dona", "seu", o q é, dos comportamentos típicos à referida idade e localidade, um dos q mais e parece filosófico.
É sabido - e o q vou dizer agora já deve ter sido objeto de pesquisas mais sérias, além do próprio empirismo - q os seres humanos, excetuando-se os distúrbios de personalidade, tratam os outros como gostariam de ser tratados.
É engraçado, bastante engraçado ver meu primo, doze anos, se referir ao coleguinha e a si próprio como "o cara", enquanto q as mocinhas púberes da mesma faixa etária ainda demorarão muito usando os termos "menino/menina". Eis um parágrafo q não serve a pesquisa alguma por estar por demais impregnado de cultura local. Mas resguardadas as especificidades ainda cái no genérico de como eles se vêm de acordo com o espelho q têm.
E qnt a isto, minha antropologia, q se reduz à primeira metade de uma disciplina de segundo semestre e mais algumas vivências aleatórias, não me permite versar mais sobre a vida selvagem. Destas aleatórias, advém o aprendizado pessoal de q é tb na adolescência q chega pra gente (ressalvados tb aqui os q vão aprendendo a reprimir) o comportamento típico de pelo poder da palavra testar o podre poder de destruir os "semelhantes"... (e chega de ressalvas, pelas quais tudo q é válido se convalida!) rs
Talvez resquícios do nosso instinto destrutivo ainda não totalmente extinto através da evolução.
E leva um tempo até esses impulsos serem dissociados ou diluídos da nossa personalidade... Aí de repente adultos, olhamos pra trás e vemos o qnt tudo passou rápido...
Passa o tempo, permanece o aprendizado.
Chegamos mais tarde cônscios do poder esmagador de nossas ostensivas palavras, e isso nos acarreta uma certa piedade dos pobres coitados desavisados do quão ruim para eles pode ser ousar desafiar-nos... rs. Mais velhos têm dessas.
E alguns contam ainda com a força do braço bem mais dimensionada q nos tempos de teste - de certa forma sabem até onde iriam numa briga com turbinados.
É nessa fase, plenos de suas mudanças interiores e das fases pelas quais passaram, q eles, de forma harmônica e natural, se aquietam.
O tempo passou mais uma vez.
Não há competições, ou pelo menos não se mostram mais do jeito q eram vistas ou ainda, internalizadas foram às regras. A vida muda, a boca emudece.
Vêm os ascendentes e as gerações se sucedem.
O corpo pede calma.
As pernas obedecem ao chamado compulsório do cansaço, da cadeira, da cama.
Olhar pra trás é ver q a vida passou tão veloz e devastadoramente q só restou mesmo aquele ator/atriz de todo o cenário.
E enquanto eu penso nisto, meu vizinho chama à porta:
"Cadê dona menina?"
"Tô aqui seu menino!" - ela responde do quarto.
Ele viera trazer a terra q ela pediu para o plantar o pézinho de mandacaru q trouxera da última viagem.
Minha avó recebe, agradece, faz seu plantio doméstico e volta ao descanso de adormecer seu sono infantil e leve.
E eu fico aqui escrevendo... pensando q ser escritora foi uma possibilidade q já ficou em outra fase.


Snow, q como filósofa passaria fome.

sábado, janeiro 27, 2007

Recorte

"a luz tinha se apagado e meu espírito tinha descido pelo ralo ou pela descarga. passei por ela outro dia e ela estava bem.O cara do lado dela era bem mais novo e mais sensato que eu e minha barba em contraste com a careca, minhas roupas amarrotadas cheirando a vômito, meu livro de neruda amassado em baixo do braço devem tê-la feito suspirar de alivio por ter caído fora a tempo... sem saber do que eu poderia ter sido se ela tivesse ficado. "
(Hilton Leal)


Meu aqui foi só a tentativa de dar um título ao post...
É dele a sensibilidade, a leveza, a densidade e a força. E desse conjunto, um pequeno recorte. Beijos!

Snow

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Catamarã

Ele não teve nome, número de telefone, nem tão pouco endereço de onde trabalhava, estudava ou e-mail pra anotar na agenda.
Tempo de sobra teve. E um pouco de medo também.
Tudo isso seguido de uma sincera e qse indescritível delicadeza.
De peculiar mesmo só a pulseira q usava no braço direito e q era feita com o mesmo material do anel do polegar. E o relógio, é lógico! Sem o qual não haveria nenhuma história pra contar.
-Que horas são?
Não há lembrança.
Memorável mesmo só o jeito q ele qse ria qnd algo parecia preocupante.
Lembrança da cor dos olhos qnd tudo o q ele via parecia brilhante.
E da conversa não ter versado sobre nada muito interessante.
Lembrança q moravam perto... e q ele disse coisas q foram esquecidas.
E foi o frio na barriga, foi o cheiro do perfume doce, foi a dor da vida ser tão passageira...
Ele era assim, sabe? Nem alto demais, nem magro demais, nem jovem demais.
Era um dos tantos dentre os muitos no infinito dos q podem/poderão/poderiam ser mais q um na multidão.
E o mais era como alguém a descreveu um dia, tal qual peça do meio de um quebra-cabeças multifacetado.

E o resto era o receio de talvez forçar um encaixe aleatório de lados.


Snow, q fica linda num colete salva-vidas.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Fungível

Que faça falta,
Mas q faça pouca.
Somente o tempo necessário
De se substituir
Uma coisa por outra.


Snow, e as coisas legais.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Madrugada

E deu vontade de ir embora àquela hora...
Sabe lá Deus q horas eram, pareceu 3 - depois de duas é, qse sempre, três... Vontade de ir pra casa.
A própria casa, o quarto, a disposição em sintonia das suas coisas soltas...
As palavras foram poucas. Bem q quis falar, mas frases não fariam sentido algum. Aliás, ultimamente, até o silêncio já tem sonoridade demais.
Morasse sozinha, teria voltado pra casa.
Tivesse a chave, teria saído dali.
Não fosse tão tarde, quem sabe até tivesse dormido...
Mas não pregou o olho.
O corpo, comparsa culposo do seu delito/delírio, se preguntava ainda trêmulo, se era mesmo preciso...
Nem ria, nem chorava, pra falar a verdade, já nem sabia mais se respirava.
A angústia, a mesma angústia dos dias apertava o peito magro, sem frio, sem calor e, qse sem lágrimas...
Remédio pra tirar uma coisa da cabeça é deixar q outra entre, isso sabia bem.
Procedimento técnico, fazer o q fosse preciso, tomar a pípula com água.
Não q curasse a doença, nem q fosse sarar a ferida ou mesmo passar a dor. Com o tempo se vê q os tratamentos mais caros não resolvem mesmo nada... com sorte, a gente anestesia.


Nisso, encontra uma caneta ao acaso, uma folha de papel solto e tenta, uma poesia:

"E na profusão espasmática
Daquele tempo q acontecia
E q tornava aquele ínfimo tempo,
Menos igual
A todas as outras noites e dias,
Já era um tempo a menos
Nas areias da ampulheta da vida...

E ela escorria."

Deu sono, mas já tinha amanhecido.


Snow, sobre coisas.

domingo, janeiro 14, 2007

Sobre ontem

Eu fiquei pensando no beijo, fiquei pensando no beijo, fiquei pensando no beijo...
Deu vontade de dizer tudo o q eu sentia, de cantar, de gritar, de correr, de rir... Deu vontade de escrever.

(Mas não existem mais espaços para descrições mágicas dos adolescentes. Agora a gente cresceu.)

O beijo, aquele beijo de alma, de água, de fogo, de chão... O leve encostar dos lábios, a troca de temperatura, de textura, de gosto, de paixão...
O beijo ávido por beijo, cansado de não-beijo, extasiado de beijo...

O beijo ficou por lá.
Viveu a seu tempo.
Existiu no seu espaço e tempo.
E o tempo passou...

Apenas eu não.

Só eu fiquei pensando no beijo sem parar.


Snow, num dia seguinte.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Premunição

Amigos, qlq dia desses um dos meus personagens se suicida.
Não se assustem. Ele há de deixar uma carta de despedida.
E além do mais, já são qse 500 postagens, será um fato normal, literalmente e, pelas estatísticas de Durkheim.
É q a vida da gente anda sempre por um fio, sabe? E sempre uma coisa à toa dentro deste social nos lembra q não estamos mesmo ligados a nada. E aí basta um pensamentozinho frouxo e... já era.
Qualquer dia desses, um dos meus personagens fictícios abandona a caneta e suja as pautas de sangue...
Se ele vai direto pro inferno ou pro céu, se é altruísta ou anômico, ou se apenas se enterra, como quem acaba um livro, isso nunca se sabe. Quem saberá...?
Qlq dia desses, uma história termina tragicamente.
Qlq dia ele vai se cansar desta história de ter q ter história e entrará pra história q não vai contar.
Qlq dia ele terá medo e coragem o bastante pra acabar.
Qlq dia não verá mais sentindo nisso tudo. Nessa historinha de papel e mais papel, bytes e canetas secas... Qlq dia, no meio de tanta falta, faltará ar.
E os outros personagens, todos, irão ao seu enterro e sentirão aquela sensação mescla de admiração, pena, medo, revelada no instinto de chorar.
Dirão adeus, voltarão pras suas histórias, cada um em particular.
Alguns sentirão saudades, falarão no nome do de cujus de vez em quando só pra relembrar.
Poucos continuarão a levar-lhe flores e, por ter sido suicida, não será nome de colégio, biblioteca, bairro, rua... Nenhum monumento será erguido para lhe homenagear.
O caixão sairá lacrado e dentro, um semblante pálido, transfigurado, desses figurantes todos de sua última página, levemente sorrirá.

Na lápide, a inscrição de sua vontade:
"Cansou desta abstração
Descansa em concreto
Está em bom lugar."


Snow, sobre o amor.

Cadê a alegria q tava aqui?

Passar a limpo os textos pagando por hora num cyber é tarefa por demais ingtrata.
Escrever folhas e mais folhas madrugadas inteiras, sinceramente, não leva ninguém a nada.
Ter preguiça pra todas as coisas do universo de quem escreve é, como se não bastasse, mais doloroso do q pensam os outros.
Fugir do assunto nos textos como se isso levasse a outro assunto por conseqüência, não tem preço.
Sinto falta de cultura pra escrever.
Seria bom, de vez em qnd ler os clássicos... ando lendo blogs.
Ouvir música... tenho colocado meu passarinho (é uma ave q só é minha por extensão, posto q é da família - sou contra cativeiros.) pra ouvir sinfonias da Educadora/TVE/Cultura, todo final de noite... Recentemente ele gostou muito da 6ª de Tchaikovsky... e eu ando ouvindo coisinhas do verão da Bahia.
No mais, passo o dia desejando q o dia passe.
As tarde são de lei. Ultimamente o Códico Civil.
E tenho descoberto o qnt é ridículo estudar informática pra concursos em apostilas antigas. Hj à tarde mesmo, numa página sobre o Win95 me veio, de súbito, um espirro! Vírus. Só pode.
Passei um Vicky, mas acho q é coisa pra antibiótico... Já tá arranhando tudo.
Queria escrever coisas alegres, responder alegremente aos q, de alguma forma, me elogiam, aceitar as coisas boas com a mesma frieza com q a vida me olha...
Sabe o q eu queria mesmo? Escrever comédias! Ah, eu adoraria!
Melhor q crônicas, q cartas, q posts, q declarações de amor... Queria q os meus registros escritos fossem todos risos.
Outro dia, num qse sonho, imaginei q as pessoas lembravam de mim pela minha alegria. Essa coisa q, estranha e q secretamente eu sei q é a minha mais viva característica... Essa coisa q contagia e enche o ambiente q a comporta... É isso. Comportamento tb é ambiente.
Notei o delírio qnd, ao tentar encaixar as lembranças nas pessoas q as teriam, percebi, à face úmida, q elas - as pessoas - até existiam, mas não estavam lá em meus momentos de euforia...
Então eu lembrei q, naquela manhã na praia, pleno sol, mar, pessoas com roupas coloridas... eu tava sozinha.
E naquela festa massa, onde eu dancei a noite inteira, tava desacompanhada.
Aquela peça engraçadona, texto do Veríssimo, eu sentei na frente... não tinha ninguém mais naquela bancada.
A última vez no cinema, desenho animado, eu poquei na risada... e depois, chorei... ninguém notou minhas lágrimas.
A festa lá com a galera, eu sambando encima da cadeira... a festa era de brincadeira. Convidados, mesmo, só eu. E a cerveja em lata.
A música q ouvi no rádio a todo volume... Ia ligar pra comentar q achei massa, mas q número? Larguei o telefone no gancho, calada.
O livro q acabei de ler, o rascunho, pretexto pra escrever, o Show do Tom na tv, a notícia do jornal de ontem, o estrogonofe q aprendi a fazer... Monólogos. Como poderiam ter graça...?
E eu q dou risada de tudo, q em tudo acho graça, q pra tudo faço piada... ando sentindo falta.
A minha veia humorística enfartada.
Horror de pensar q serei lembrada por ter olhos tristes, cabisbaixa no final do espetáculo, pensando em algo sobre voltar pra casa...
Senão por um momento de tristeza, talvez por uma tentativa desesperada de não estar sozinha... à preço de ouro. Minhas pérolas a porcos. Sorte mesmo se não for lembrada.
E eu queria deixar o registro de minha alegria, minha companhia risonha e simpática, por ser tão sociável, tão galera, tão amigos, tão tudo massa...
É uma pena.
Os poucos q estiveram perto, de passagem, sem contexto, compromisso, cuidado, afeto, sem nem o espírito de "somos um algo"... eles não acharam muita graça.
Breve não lembrarão de nada.
E aí ficam essas páginas de caderno e eu aqui passando à limpo...
A outra opção é gastar minhas horas deste cyber nas salas da premium do Mega Jogos. Lá tem uns robôzinhos legais pra compor a mesa.


Snow, q tem ganhado incríveis partidas de buraco.
Todas contra inteligência artificial on line.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Bigtasty

-Posso ajudar? O q o senhor deseja?
-Tô decidindo aqui. Melhor o de 500ml, o de 700 é muito grande e eu acho q não...
-Oxente!? -a atendente regional do McDonalds- Guenta sim! Eu tomo aquilo ali brincando!!
-Sério?
-Tomo sim, sem porblemas. E de 700!
-Olha, vou te contar, você... você é danadinha, hein?!
-:)

- E esse sanduiche aqui, como é q é? Você... vai nele?
- Não!!! Aí também não!
-Ah! Porque eu já ia pedir seu número!


Snow, q não teve nada a ver com isso.

Primeiro

Chocolate, guaraná-em-pó, leite condensado, vodka, gelo e liquidificador. Pronto: eis o famoso Capeta! O inimigo.
(Serve pra acordar, mas se o kba tomar demais, no dia seguinte dá uma dor de cabeça do cão!)
No mesmo lugar: Nevada, Daiquiri e a deliciosa, com o perdão da palavra: Xoxota!
(O cara q inventou esse drink é o cara! Maluco! Ê bicho bom! Quem toma uma, resolve tomar todas! - E olha q eu sou espada!)
Mas não foi só isso. O nome da barraca era 'Sem Miséria', dá pra acreditar? Possas! Só bagaceira.
Mas Bahia é sinônimo de trio. Trio=axé.
Axé, forró, samba, arrocha, pagode e música eletrônica.
Caranguejo, mariscada, sururu, arraia, rubalo, ostra, camarão, aratu e lambreta. E salada. E pirão. E coco. E dendê... muito dendê.
Q sundown q nada! Ali era sunup!
A carne negra brilhando do sal. O cabelo preto enrolando nas ondas. A lente escura contra o vento. Os tons de melanina misturando-se ao ritmo do mar...
E água... Muita água. E reggae... Muito reggae. E gente... muita gente.
Latinha não, garrafa. E cada vez menos espuma.
E o mar refletindo as luzes do artifício de esquecer simbolicamente o q passou.
A onda arrastando a dor...
A orla era logo ali. Logo abaixo dos pés.
Os pés ficaram sob o salto, q finalmente aprendeu a equilibra-se e a dançar e a correr e a saltar e a gostar...
Quem diria, né? Era só erguer a cabeça e andar. Não tinha nada a ver com os sapatos ou com as pernas, o equilíbrio tava na cabeça.
A fumaça Gudan enfeitando a boca. O gosto cravo-canela-menta ardendo na língua. O tribal henna q a cintura ainda ornamenta. O branco, a roupa, o barro... tudo isso fermenta.
E depois de 14 horas sob a mini-saia e sobre o salto 10, entre areia da praia, paralelepípedos, asfalto, escada, ondas, buracos e todos os ritmos daquela terra-água, a sensação era de q se podeia ter o mundo a seus pés... e como quem não quer mais q isso: voar.


Snow, Guaibim-Bahia, 2007

Pra não dizer q não falei das expectativas...

Meu plano secreto de ficar loura dos cabelos veio em paralelo com o de ter a pele preta... Pq nasci nem uma coisa nem outra, sabe? Nasci assim, no meio dessa mistura meio q com água demais, cor de caixa de papelão... Nasci turva.
Meu plano é comprar uma tinta. Uma não, duas!
Meu plano é comprar com uma moeda, nem a mesma, mas com uma moeda dura, isso q não veio com a natureza.
-Já q meus planos de ser interessante não foram o bastante, eu planejo me desinteressar deste restante.-
Meu plano é mudar de uma hora pra outra, como quem troca de roupa.
Meu plano é poder ir à praia uma vez por semana. Meu plano é ir sozinha na maioria das vezes.
-Antes, qnd meu plano era ir acompanhada pelo menso uma vez por mês, com sorte eu conseguia ir uma, a cada seis. E nunca achei ninguém q gostasse de ir à praia do mesmo jeito q eu. E olha q eu nem gosto de um jeito q seja só meu! Parágrafo confuso... deixa pra lá.-
Meu plano é aprender a nadar. O risco q se corre ao aprender é risco q, depois q se aprende, não se corre mais.
Meu plano é aprender a andar de bicicleta... Esse, de todos, é o mais audacioso, posto q lembro perfeitamente de todas as minhas quedas.
Meu plano é virar artista amadora de minhas obras de arte prediletas.
Meu plano é abandonar as coisas q não me surpreendem mais. Aliás, esse é o único q não consigo planejar como, acontece.
Meu plano é ser cada vez menos virtual.
E cada vez menos real.
Meu plano é fazer a tatuagem da cintura, a do pescoço e a do pé.
Meu plano é planejar bem, pra o dia em q eu não precisarei fazer nem um plano se quer.
Meu plano é deixar de ser inédita.
Meu plano é deixar de ser assim... tão assim, sabe? Tão qse lá.
-Esse eu não sei direito se vai dar. (Será?) Esse eu não consigo planejar direito... É um palno com tantos defeitos...-
Meu plano é ter sempre outra saída q não apenas confiar.
Meu plano é conhecer as praias q eu ainda não conheço... Meu plano, antes disto, é ter uma máquina pra fotografar.
-Meu plano é ter tanta foto, tanta, mas tanta... ah! De maneira q eu nunca mais me sinta triste.-
Meu plano é voltar em alguns lugares só pra registrar. - Não voltar no tempo, isso não dá. Mas voltar ao lugar num tempo novo, outro. E tirar fotos sorrindo como nem importa mais se antes seria possível.
Tirar fotos felizes, retratos, paisagens... fotosintetizar!
É isso, meu plano é ser verde! Meu plano é dar braçadas na água, ser peixe, serpente, é acertar!
-Ser gipe... talvez Ce ará.-
Meu plano é ser tão. Ser taneja. Cer veja...
Meu palno é morar na areia... oh, ser-rei-a!
É ser vista sendo. É ser mais do q se vê.
É, deixar de ser cerne, sabe? E ser aquela q está.
Meu plano é ter um belo par de coxas e estar pras outras moças assim como a casca está para o pé de canela: o gosto, o paladar.
Meu plano é q alguém, em algum ângulo q eu não enxergo, me veja.
Meu plano - e tomara q dê certo- é dar certo... Assim como as coisas q a gente não palneja.

E q assim seja!


Snow, divagando sobre a mega sena acumulada... milhões! Eita...

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Separados

Quando a minha solidão
Misturou-se a sua
Deu em nós uma vontade
Quase absoluta
De juntar as duas.

E fomos,
Cada qual com as suas solidões
Múltiplas,
Misturar-nos às outras coisas
- todas absurdas -
Das quais sofrem os corações.

Mas pela manhã,
Quando fez falta fazer falta...
Tanto fez.

E no amamos juntos,
Em nossas casas
Assim: Um.
De cada vez.


Snow

Sobre o tédio

Dentre os tantos pontos, tirei deste conto q a vida real nos tira a capacidade de inventar.
E eu q vivo a tirar histórias do corpo, a arrancar fantasias das mãos, e me surpreendo com o quão as coisas escritas podem ser fantásticas, tanto desejo qnt temo o dia em q a vida verdadeira prevalecerá sobre a magia das coisas encantadas...
O dia do suicídio do inventor-escritor, q eu tanto espero, tanto quero e tanto tento, ao começo da pessoa por trás dos cadernos rabiscados e canetas secas q surgirá para a sua realidade não-fictícia.
O dia em q, qse morrendo pela rotina de ter q viver, eu desejarei ardentemente voltar a escrever e, quem sabe, ser poeta...
Sentirei remorso por não ter criado, tal qual sentiu o ex-mágico de Rubião, artifícios para qnd esse dia chegasse... Tocarei com ânsia e qse angústia os meus itens na tentativa vã de torná-los novamente artefatos... Tudo inútil.
Nenhuma letra grafará os cadernos disponíveis. Nenhuma frase sairá do lápis.
A vida, como q espada, me dilacerará a carne... E eu, bem menos arte q o Marquês de Sade, não terei forças pra escrever em excrementos e sangue...
O dia em q eu serei mãe-mulher-dona-de-casa-de-vida-pública-e-privada e o meu dia terá 36 horas, todas ocupadas!
E nesse dia eu não vou rabiscar poemas nas páginas do livro de lição de casa, nem nos autos lavrados em papel timbrado, nem nos eventuais laudos, listas de compras feitas às pressas, versos dos cheques de pagamento do salário da empregada, nem nas notas de papel moeda...
Sonho ardentemente com a inversão destes personagens por pastas de contas pagas e a pagar. Planilhas de custos e roteiros a realizar.
E então, não escreverei mais nada de fútil.
E nas páginas do dia de pessoa comum, anônima, inédita
Cada folha será uma imensa borracha...
Até o dia de apagar com a certidão de óbito
A última página da existência q resta.

Na lápide: Viveu assim q lhe fora possível.
Antes, só pode ser poeta.

Snow

O Ex-mágico da Taberna Minhota (Murilo Rubião)

"Inclina, Senhor, o teu ouvido, e ouve-me; porque eu sou desvalido e pobre." - Salmos, LXXXV, 1.

O Ex-mágico da Taberna Minhota
(Murilo Rubião)


Hoje sou funcionário público e este não é o meu desconsolo maior.

Na verdade, eu não estava preparado para o sofrimento. Todo homem, ao atingir certa idade, pode perfeitamente enfrentar a avalanche do tédio e da amargura, pois desde a meninice acostumou-se às vicissitudes, através de um processo lento e gradativo de dissabores.

Tal não aconteceu comigo. Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude.

Um dia dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota. A descoberta não me espantou e tampouco me surpreendi ao retirar do bolso o dono do restaurante. Ele sim, perplexo, me perguntou como podia ter feito aquilo.

O que poderia responder, nessa situação, uma pessoa que não encontrava a menor explicação para sua presença no mundo? Disse-lhe que estava cansado. Nascera cansado e entediado.

Sem meditar na resposta, ou fazer outras perguntas, ofereceu-me emprego e passei daquele momento em diante a divertir a freguesia da casa com os meus passes mágicos.

O homem, entretanto, não gostou da minha prática de oferecer aos espectadores almoços gratuitos, que eu extraía misteriosamente de dentro do paletó. Considerando não ser dos melhores negócios aumentar o número de fregueses sem o conseqüente acréscimo nos lucros, apresentou-me ao empresário do Circo-Parque Andaluz que, posto a par das minhas habilidades, propôs contratar-me. Antes, porém, aconselhou-o que se prevenisse contra os meus truques, pois ninguém estranharia se me ocorresse a idéia de distribuir ingressos graciosos para os espetáculos

Contrariando as previsões pessimistas do primeiro patrão, o meu comportamento foi exemplar. As minhas apresentações em público não só empolgaram multidões, como deram fabulosos lucros aos donos da companhia.

A platéia, em geral, me recebia com frieza, talvez por não me exibir de casaca e cartola. Mas quando, sem querer, começava a extrair do chapéu coelhos, cobras, lagartos, os assistentes vibravam. Sobretudo no último número em que eu fazia surgir, por entre os dedos, um jacaré. Em seguida, comprimindo o animal pelas extremidades, transformava-o numa sanfona. E encerrava o espetáculo tocando o Hino Nacional da Cochinchina. Os aplausos estrugiam de todos os lados, sob o meu olhar distante.

O gerente do circo, a me espreitar de longe, danava-se com a minha indiferença pelas palmas da assistência. Notadamente se elas partiam das criancinhas que me iam aplaudir nas matinês de domingo. Por que me emocionar, se não me causavam pena aqueles rostos inocentes, destinados a passar pelos sofrimentos que acompanham o amadurecimento do homem? Muito menos me ocorria odiá-las por terem tudo que ambicionei e não tive: um nascimento e um passado.

Com o crescimento da popularidade a minha vida tornou-se insuportável.

Às vezes, sentado em algum café, a olhar cismativamente o povo desfilando na calçada, arrancava do bolso pombos, gaivotas, maritacas. As pessoas que se encontravam nas imediações, julgando intencional o meu gesto, rompiam em estridentes gargalhadas. Eu olhava melancólico para o chão e resmungava contra o mundo e os pássaros.

Se, distraído, abria as mãos, delas escorregavam esquisitos objetos. A ponto de me surpreender, certa vez, puxando da manga da camisa uma figura, depois outra. Por fim, estava rodeado de figuras estranhas, sem saber que destino lhes dar.

Nada fazia. Olhava para os lados e implorava com os olhos por um socorro que não poderia vir de parte alguma.

Situação cruciante.

Quase sempre, ao tirar o lenço para assoar o nariz, provocava o assombro dos que estavam próximos, sacando um lençol do bolso. Se mexia na gola do paletó, logo aparecia um urubu. Em outras ocasiões, indo amarrar o cordão do sapato, das minhas calças deslizavam cobras. Mulheres e crianças gritavam. Vinham guardas, ajuntavam-se curiosos, um escândalo. Tinha de comparecer à delegacia e ouvir pacientemente da autoridade policial ser proibido soltar serpentes nas vias públicas.

Não protestava. Tímido e humilde mencionava a minha condição de mágico, reafirmando o propósito de não molestar ninguém.

Também, à noite, em meio a um sono tranqüilo, costumava acordar sobressaltado: era um pássaro ruidoso que batera as asas ao sair do meu ouvido.

Numa dessas vezes, irritado, disposto a nunca mais fazer mágicas, mutilei as mãos. Não adiantou. Ao primeiro movimento que fiz, elas reapareceram novas e perfeitas nas pontas dos tocos de braço. Acontecimento de desesperar qualquer pessoa, principalmente um mágico enfastiado do oficio.

Urgia encontrar solução para o meu desespero. Pensando bem, concluí que somente a morte poria termo ao meu desconsolo

Firme no propósito, tirei dos bolsos uma dúzia de leões e, cruzando os braços, aguardei o momento em que seria devorado por eles. Nenhum mal me fizeram. Rodearam-me, farejaram minhas roupas, olharam a paisagem, e se foram.

Na manhã seguinte regressaram e se puseram, acintosos, diante de mim.

- O que desejam, estúpidos animais?! - gritei, indignado. Sacudiram com tristeza as jubas e imploraram-me que os fizesse desaparecer:

- Este mundo é tremendamente tedioso - concluíram.

Não consegui refrear a raiva. Matei-os todos e me pus a devorá-los. Esperava morrer, vitima de fatal indigestão.

Sofrimento dos sofrimentos! Tive imensa dor de barriga e continuei a viver.

O fracasso da tentativa multiplicou minha frustração. Afastei-me da zona urbana e busquei a serra. Ao alcançar seu ponto mais alto, que dominava escuro abismo, abandonei o corpo ao espaço.

Senti apenas uma leve sensação da vizinhança da morte: logo me vi amparado por um pára-quedas. Com dificuldade, machucando-me nas pedras, sujo e estropiado, consegui regressar à cidade, onde a minha primeira providência foi adquirir uma pistola.

Em casa, estendido na cama, levei a arma ao ouvido. Puxei o gatilho, à espera do estampido, a dor da bala penetrando na minha cabeça.

Não veio o disparo nem a morte: a mauser se transformara num lápis.

Rolei até o chão, soluçando. Eu, que podia criar outros seres, não encontrava meios de libertar-me da existência.

Uma frase que escutara por acaso, na rua, trouxe-me nova esperança de romper em definitivo com a vida. Ouvira de um homem triste que ser funcionário público era suicidar-se aos poucos.

Não me encontrava em condições de determinar qual a forma de suicídio que melhor me convinha: se lenta ou rápida. Por isso empreguei-me numa Secretaria de Estado.

1930, ano amargo. Foi mais longo que os posteriores à primeira manifestação que tive da minha existência, ante o espelho da Taberna Minhota.

Não morri, conforme esperava. Maiores foram as minhas aflições, maior o meu desconsolo.

Quando era mágico; pouco lidava com os homens - o palco me distanciava deles. Agora, obrigado a constante contato com meus semelhantes, necessitava compreendê-los, disfarçar a náusea que me causavam.

O pior é que, sendo diminuto meu serviço, via-me na contingência de permanecer à toa horas a fio. E o ócio levou-me à revolta contra a falta de um passado. Por que somente eu, entre todos os que viviam sob os meus olhos, não tinha alguma coisa para recordar? Os meus dias flutuavam confusos, mesclados com pobres recordações, pequeno saldo de três anos de vida.

O amor que me veio por uma funcionária, vizinha de mesa de trabalho, distraiu-me um pouco das minhas inquietações.

Distração momentânea. Cedo retornou o desassossego, debatia-me em incertezas. Como me declarar à minha colega? Se nunca fizera uma declaração de amor e não tivera sequer uma experiência sentimental!

1931 entrou triste, com ameaças de demissões coletivas na Secretaria e a recusa da datilógrafa em me aceitar. Ante o risco de ser demitido, procurei acautelar meus interesses. (Não me importava o emprego. Somente temia ficar longe da mulher que me rejeitara, mas cuja presença me era agora indispensável.)

Fui ao chefe da seção e lhe declarei que não podia ser dispensado, pois tendo dez anos de casa, adquirira estabilidade no cargo.

Fitou-me por algum tempo em silêncio. Depois, fechando a cara, disse que estava atônito com meu cinismo. Jamais poderia esperar de alguém, com um ano de trabalho, ter a ousadia de afirmar que tinha dez.

Para lhe provar não ser Levianas a minha atitude, procurei nos bolsos os documentos que comprovavam a lisura do meu procedimento. Estupefato, deles retirei apenas um papel amarrotado - fragmento de um poema inspirado nos seios da datilógrafa.

Revolvi, ansioso, todos os bolsos e nada encontrei.

Tive que confessar minha derrota. Confiara demais na faculdade de fazer mágicas e ela fora anulada pela burocracia.

Hoje, sem os antigos e miraculosos dons de mago, não consigo abandonar a pior das ocupações humanas. Falta-me o amor da companheira de trabalho, a presença de amigos, o que me obriga a andar por lugares solitários. Sou visto muitas vezes procurando retirar com os dedos, do interior da roupa, qualquer coisa que ninguém enxerga, por mais que atente a vista.

Pensam que estou louco, principalmente quando atiro ao ar essas pequeninas coisas.

Tenho a impressão de que é uma andorinha a se desvencilhar das minhas mãos. Suspiro alto e fundo.

Não me conforta a ilusão. Serve somente para aumentar o arrependimento de não ter criado todo um mundo mágico.

Por instantes, imagino como seria maravilhoso arrancar do corpo lenços vermelhos, azuis, brancos, verdes. Encher a noite com fogos de artifício. Erguer o rosto para o céu e deixar que pelos meus lábios saísse o arco-íris. Um arco-íris que cobrisse a terra de um extremo a outro. E os 'aplausos dos homens de cabelos brancos, das meigas criancinhas.

Murilo Rubião, 1947.
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