quarta-feira, março 19, 2008

Ciclo

Uma vez por mês sou como uma lua de quatro fases, em apenas uma.
Mansa. Irritada. Agressiva. Frágil...
Tímida e durona.
Sensível.

Uma vez por mês é esse bombardeio de anseios, desejos, frustrações, angústias...

Uma vez por mês vulnerável.
Suscetível.

Uma vez por mês eu queria chegar em casa e ficar sozinha.
Pra soluçar todas essas lágrimas q escondo.

Uma vez por mês eu fico redondinha.
Fico querendo o mar, o céu, as nuvens...
Uma vez por mês, eu fico assim, por alguns dias...

Nascendo e me pondo.


Snow, no seu mundo.

Rodapé

Freqüentemente tenho q interromper a leitura pq meu pensamento não acompanha.
Eu até q tento, mas sempre acabo me perdendo no meio.
E assim o parágrafo fica lá,
Falando sobre coisas diferentes
Dos teus braços, dos teus beijos, do teu peito...

E deve ser por isso q eu continuo não entendo qse nada do q leio.


Snow, revendo anotações na véspera.

Atenção!

Pintei os cabelos de vermelho e sei q há muita diferença pq qnd me olho no espelho não estão mais lá os fios louros, nem os negros, e o meu semblante também incorporou a tinta... mas ainda assim não me vejo mudada.
Mudar é um processo complexo. Eu tenho mudado uma coisinha ou outra mas sempre me acho tão a mesma q, vez em qnd tenho certeza q... não mudou nada.
As pessoas mudam. As outras, todas. E é por isso q eu tb, qnd vou ver já mudei um pouco com essa mudança toda.
As pessoas de minha vida são como as tintas do meu cabelo q mudam a minha cara... Elas mexem na minha naturalidade sem alterar a raiz. E no fundo eu sou de uma cor q não existe. A pintura é uma tentativa de dar forma pra mostrar movimento...
Mas eu sou parada.
Vermelho-vinho na parte q era loura, vermelho-roxo na parte mais escura e vermelho-sangue na q era castanho-clara.
Houve uma época q mudava de e-mail, de telefone, casa. Hj eu mudo a cor, o comprimento, o penteado.
No fundo eu queria mesmo era mudar por dentro...
Pintar o coração de verde, mas no momento,
Tal qual sinal q faz a gente ficar enfrente à faixa
A esperança continua lá... só q agora na versão vermelha...

Fechada.


Snow red power, Tomate, Rebelde...
Recentemente me chamaram de ruivinha... balancei a cabeça em negativa, mas dois ou três passos depois, dei risada.

SMS de um P.S.

A blusa que eu usava qnd te abracei
Guardou um pouco do cheiro q vestia o teu peito...
Já não posso lavá-la, ao invés,
Cobri com ela a fronha do travesseiro sobre o qual me deito
E isso me dá a sensação que é a vc quem abraço qnd adormeço,
E q é sob o ninar dos teus lábios
Q repousa o meu beijo.


Snow, digitando pra deletar.

terça-feira, março 04, 2008

Algo q achei lindo

Quero apenas cinco coisas..
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.


(Pablo Neruda)


Snow love Neruda.

Trecho

Eu era um jovem louro e saudável quando adentrei a baía de Guanabara, errei pelas ruas do Rio de Janeiro e conheci Teresa. Ao ouvir cantar Teresa, caí de amores pelo seu idioma, e após três meses embatucado, senti que tinha a história do alemão na ponta dos dedos. A escrita me saía espontânea, num ritmo que não era o meu, e foi na batata da perna de Teresa que escrevi as primeiras palavras na língua nativa. No princípio ela até gostou, ficou lisonjeada quando lhe disse que estava escrevendo um livro nela.
Depois deu pra ter ciúmes, deu pra me recusar seu corpo, disse que eu só a procurava a fim de escrever nela, e o livro já ia pelo sétimo capítulo quando ela me abandonou.
Sem ela, perdi o fio do novelo, voltei ao prefácio, meu conhecimento da língua regrediu, pensei até em largar tudo e ir embora para Hamburgo. Passava os dias catatônico diante de uma folha de papel em branco, eu tinha me viciado em Teresa. Experimentei escrever alguma coisa em mim mesmo, mas não era tão bom, então fui a Copacabana procurar as putas. Pagava pra escrever nelas e talvez lhes pagasse além do devido, pois elas simulavam orgasmos que me roubavam toda a concentração. Toquei na casa de Teresa, estava casada, chorei, ela me deu a mão, permitiu que eu escrevesse umas breves palavras enquanto o marido não vinha. Passei a assediar as estudantes, que às vezes me deixavam escrever nas suas blusas, depois na dobra do braço, onde sentiam cócegas, depois na saia, nas coxas. E elas mostravam esses escritos às colegas, que muito os apreciavam, e subiam ao meu apartamento e me pediam que escrevesse o livro na cara delas, no pescoço, depois despiam a blusa e me ofereciam os seios, a barriga e as costas. E davam a ler meus escritos a novas colegas, que subiam ao meu apartamento e me imploravam para arrancar as suas calcinhas, e o negro das minhas letras reluzia em suas nádegas rosadas. Moças entravam e saíam da minha vida, e o meu livro se dispersava por aí, cada capítulo a voar para um lado. Foi quando apareceu aquela que se deitou na minha cama e me ensinou a escrever de trás pra diante. Zelosa dos meus escritos, só ela os sabia ler, mirando-se no espelho, e de noite apagava o que de dia fora escrito, para que eu jamais cessasse de escrever meu livro nela. E engravidou de mim, e na sua barriga o livro foi ganhando novas formas, e foram dias e noites sem pausa, sem comer um sanduíche, trancado no quartinho da agência, até que eu cunhasse, no limite das forças, a frase final: e a mulher amada, cujo leite eu já sorvera, me fez beber da água com que havia lavado sua blusa.

(Chico Buarque, trecho do livro "Budapeste")


Snow, recebido por e-mail de um amigo... q quer me incentivar a ser escritora.

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Na alegria e...

Laboratório da faculdade, vim ler alguma coisa, passear... (rs), aproveitar as férias!
Tô pensando em trancar. Na verdade, tô em frente à porta e com a chave na mão...
Me disseram q a faculdade abriria portas... eu não sei o q dizer.
Vou sentir saudades, não queria q fosse um adeus pra sempre. Foi uma paixão que eu gostei de ter.
Na verdade eu queria, sabe? Queria muito que tudo desse certo, q fosse perfeito e q essa minha relação durasse... Essas coisas de ter um final feliz, uma união com frutos, q eu não tivesse q concordar tantas e tantas vezes com as teorias de Rafael q, mesmo qnd eu não concordo, parece q algumas coisas têm o dom de se impor numa urgência maior, sempre independentemente da minha aprovação.
Na realidade, se essa faculdade não exigisse de mim tanta dedicação total, exclusiva e em tempo integral, sobreumana, sobrecarregante e absurdamente exaustiva, eu acho q até suportaria essa relação, pelas partes boas...
Mas acontece q, fosse lá qual fosse a nota, ela não poderia pesar mais que os meus preciosos 5 quilos q foram embora em menos de 5 meses sem dizer se voltariam...
Não poderia ter maior valor q as minhas noites insones, atordoada, q os dias sob total tensão e cansaço, q os meus olhos tensos, o corpo trêmulo, as mãos frias...
Sei q vou sentir falta da biblioteca. Lá ficavam os livros q eu não podia ler pq não tinha tempo. Estava ocupada demais com os meus trabalhos acadêmicos.
Vou sentir falta das aulas, em especial as q eu não podia prestar atenção pq tinha uma prova no horário seguinte e logo mais, uma apresentação... Ou pq tava morrendo de sono de ter passado a noite em claro, estudando...
Sentirei falta das palestras q, não participei pra não tomar falta na aula q tava acontecendo na minha turma...
Das festas q não fui, pq eram caras.
Vou sentir muita falta do laboratório com o Orkut, o MSN e o You Tube bloqueados e mais uma série de categorias de outros sites. E o frio do caralho.
Muita falta me fará conhecer mais minha turma... q tb não se conhece.
Os filmes q eu assisti, q eu só tive acesso ali, e q eu não consegui apreciar na verdade como filme, como cinema, como uma arte, pq tinha q anotar, pq tinha resenha, pra nota.
Vou sentir falta dos experimentos q eu gostava tanto e q exigiam de mim páginas e mais páginas de relatórios.
Vou sentir falta de ter sentido tanta falta... e não sentir mais nada.
Quando tudo começou eu pensei: Tai, agora é só assistir aula e ler!
Ledo engano. Era só produzir.
Sinto q preciso dar um tempo...

Até mesmo pra descansar a máquina.


Snow, na tristeza.
P.S. Inicio do semestre passado, q eu não cursei.

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

P.S. de um SMS

Escrevi uma mensagem tão bonita que deu medo de mandar. Ele acharia q não merece. E meu medo era que ele quisesse que eu também achasse.
Eu acho que as musas não mereciam os poemas clássicos. Nem as divas. E eu não me arriscaria a dizer isso na cara do Da Vinci, mas a gente sabe que... nem mesmo a Monaliza.
Com o tempo a gente aprende que a inspiração é mesmo algo particular. Publicá-la é a tentativa de homenagear alguém que talvez não esteja nem aí... Nem lá, dentro de nós, para aonde entramos para compor.
Outro dia vi meus sentimentos de perto. Olhei para eles arregalada, assustada com a sua grandeza, sua força, sua formação... Meus sentimentos sou eu, desde agora até a infância. Amalgamada de emoções que vou contendo e expectativas, regada a risos e lágrimas. Do outro, tem na realidade tão pouco, que chego a pensar que é vão declará-los. Dá vontade de dizer, como já disse “Eu te amo, mas não é bem isso. Não é por você, eu amo por mim.” Porque eu amo mesmo, e é assim.
Não sei bem se por maldição ou milagre, mas eu não sei não amar.
Não é que você não fez nada para merecer, meu amor, é que você não vai fazer. Não pode. Não lhe compete. O meu coração é meu e eu nem sei até que ponto, mas o que eu sinto está em mim, me compondo. Como a dor. Como a alegria...
Você pode até me bater ou me contar uma história engraçada, mas isso não é condição suficiente pra que eu reaja. Pra que eu sinta amor ou ódio.
Engraçado, relendo, parece óbvio. Parece também que eu controlo tudo o que eu sinto, mas acho que é bem o contrário. Nem você, objeto dos meus sentimentos, nem eu controlamos nada. E é tudo muito frágil.
Eu, no máximo, direciono. Você, no máximo, induz. Nós, no máximo, tentamos.
Eu já disse, já escrevi, já cantei tanta coisa nessa vida que hoje sei mesmo que já não faço quase nada.
Mas tudo o que você vê nos meus olhos e nos meus gestos enquanto eu fico calada é pra você...

Mesmo que não seja por sua causa.


Snowflake.

terça-feira, janeiro 29, 2008

O tempo acabou

Numa das minhas recentes aparições pela net – q têm se tornado cada vez mais raras e rápidas ultimamente – algo me chamou atenção nesse ambiente on line.
(Esse parêntese é pra explicar q um dos muitos motivos q têm me feito não escrever aqui é a raiva q tenho sentido de usar computadores de cybers.).
E extrapolando o parêntese, saliento q antes, nem me importava de onde fosse o computador ou o q eu tivesse q fazer para tê-lo por algum tempo e poder publicar meus textos neste blog e, por conta disso, eu me dispunha a fazer coisas q hoje, com a consciência um pouco mais sã, eu não faço mais.
Lembro de já ter pagado $4.00,00 por hora... De já ter gasto bem mais do q eu podia, tipo, o $ do transporte da última semana do mês na escola, qnd o do lanche do mês inteiro já havia sido sacrificado... Lembro de pegar 4 ônibus pra estar na casa de alguém q me deixasse usar o micro, de viajar por horas, de faltar aulas da faculdade, de dar graças a Deus qnd rolava um horário vago, de agüentar o frio, para mim, insuportável, e ficar tremendo num laboratório congelante... De usar um computador sem mouse, de ter pilhas de disquetes, de digitar no editor do e-mail – q sempre expirava com meu texto inteiro – pq ali não tinha do word, nem o pad... De tentar com todo esforço aprender o Linux, pq a máquina não tinha Windows... De ver meus olhinhos brilharem de alegria qnd alguém q eu conhecia comprava um micro, de eu mesma já ter tentado algumas vezes e planejado milhares de outras fazer o mesmo. De ter aceitado emprego cujo único salário era o benefício de usar a máquina, de fazer horas extras... De disputar um 486 numa fila com qse todos os outros q moravam na república, de só conseguir horário pela madrugada. De ficar babando de inveja dos q trabalhavam o dia inteiro na frente do computador, de ter feito vestibular pra Ciência da Computação... De ter implorado uma vez pro brother não fechar antes q eu transcrevesse aquele último parágrafo... De fazer olho comprido qnd meu tempo acabava, de babar de inveja de um amigo meu q tinha um note book e podia levar consigo para aonde quisesse e, um dia ele o levou para minha casa... e eu lhe fui grata eternamente qnd ele prometeu q qnd eu quisesse ele me emprestava...
Um dia, e só muito recentemente eu desisti dessa idéia q tive por uns 8 anos qse , onde o maior sonho de minha vida era ser dona de um cyber...
Com todo esse histórico é dificil, muito difícil pra mim me desvencilhar desse objeto idolatrado...
É verdade também q já não bate aquela mesma onda, e isso tem até a ver com a possibilidade mais real de eu comprar um em breve e estar, digamos, “me guardando” um pouco pra esse momento tão esperado.
É tb certo q as novidades já me vislumbraram mais – ou q eu já não me deixo vislumbrar pelo brilho delas - e q as velhas coisas continuam as mesmas, só q agora com mais spans, mas vírus, mais ferramentas... Cada vez mais irritantes de se descobrir como é q faz pra continuar não usando.
Fechando o maior parêntese desse blog inteiro - só pra fechar mesmo, já q a lista tá bem longe de acabar- eu tenho procurado gastar meu tempo mais lendo q escrevendo e, também aconteceu de eu perceber q as coisas q a gente escreve as vezes são muito parecidas ou estão muito próximas da forma genérica q é esta confusão de finais e começos...
Sabe o q é perder a graça de falar sobre detalhes q parece q só vc vê, justamente por descobrir q, pros outros, já não é mais novidade?
Sabe o q é, pra um escritor, descobrir q seus textos são só um amontoado de palavras q se reordenam de ciclos em ciclos ao longo das pautas do tempo e q vc, é apenas um verso de poema da caneta do acaso?
É... e o meu off-line-mento tem tb a ver com este estado.
E com todos aqueles sacrifícios q eu fazia sem medir esforços para conseguir digitá-los q, me desculpem os sonhadores, não leva ninguém a nada.
Mas agora, lendo por alto uma página onde se publicam editais de concursos públicos e tendo noutras janelas aberto o e-mail do trabalho, a home da faculdade e o meu e-mail pessoal, depois de fechar rapidamente o orkut antes q alguém visse q eu fique on e não desejei feliz aniversário, algo me chamou atenção para além dos bytes.
Ela deveria ter uns 19 anos. Cabelos compridos, negros, ondulados, pele morena, aparência saudável e um riso no rosto com um brilho q me deu saudade dos tempos em q eu usava compulsivamente o msn... Abri. Só pra ver se tinha alguém on line. Três ou 4 gatos pingados, um desconhecido q me adcionou sabe-se lá Deus através de quem ou de onde, um brother, um xato e um veterano. Disse olá ao brother, mas ele me avisou q já tava de saída. Nenhuma, cara. Pensei comigo “já vai tarde”, e fui tb. Antes só q com o msn ligado.
Fiquei olhando pra tela. Nem lendo, mas só vendo as palavras, as figuras, os minutos passarem, absorta, tentando dissolver da mente os momentos de tensão de um dia cheio no trabalho.
Foi assim até q essa minha desconexão caiu e ouvi de repente o som de um choro do qual pude perceber ainda os gestos de quem tentava disfarçar as lágrimas... A mesma pessoa q antes vibrou por ter visto q passara num curso preparatório para o mercado de trabalho, q sorira encantada e encantadoramente para um janela do msn à ponto de até me despertar para ver o meu, agora, ali no mesmo programa, entre soluços disfarçados, chorava...
Foram essas lagrimas q me fizeram rever o HD dos meus últimos 7, 8 anos. Ou talvez 10, 12, desde q vi um microcomputador pela primeira vez.... Me fizeram lembrar de muitas das minhas fases, fantasias, realidades (virtuais e nem tanto), dos textos, pesquisas, frustrações, descobertas, desabafos, emoções, piadas, ppss, gifs, fotos, vídeos, câmeras, chats...
E digo mais, não fosse o tempo já estar acabando eu juro q reabriria o messenger e diria um "hi" praquele forasteiro só pra, sei lá, dar um refresh, tirar a teia, saber qual seria a sua nacionalidade...
Mas nem. Na dividida, faz tempo q tava devendo um post mais ou menos de verdade aqui e, como não é todo dia q a inspiração bate (embora eu apanhe dela bem mais), e a boa vontade sempre tem pressa de ser aproveitada...
Lembrar de emoções vividas me deixa com esse ar assim, de indisfarçável saudade.


Snow, q deve este texto à menina da máquina ao lado, nesta mesma lan house.

sábado, janeiro 26, 2008

Crônica da Loucura

De Luis Fernando Veríssimo, recebido por e-mail.

O melhor da Terapia é ficar observando os meus colegas loucos.
Existem dois tipos de loucos. O louco propriamente dito e o que cuida do louco: o analista, o terapeuta, o psicólogo e o psiquiatra. Sim, somente um louco pode se dispor a ouvir a loucura de seis ou sete outros loucos todos os dias, meses, anos. Se não era louco, ficou.
Durante quarenta anos, passei longe deles. Pronto, acabei diante de um louco, contando as minhas loucuras acumuladas. Confesso, como louco confesso, que estou adorando estar louco semanal.
O melhor da terapia é chegar antes, alguns minutos e ficar observando os meus colegas loucos na sala de espera. Onde faço a minha terapia é uma casa grande com oito loucos analistas. Portanto, a sala de espera sempre tem três ou quatro ali, ansiosos, pensando na loucura que vão dizer dali a pouco.
Ninguém olha para ninguém. O silêncio é uma loucura. E eu, como escritor, adoro observar pessoas, imaginar os nomes, a profissão, quantos filhos têm, se são rotarianos ou leoninos, corintianos ou palmeirenses.
Acho que todo escritor gosta desse brinquedo, no mínimo, criativo. E a sala de espera de um "consultório médico", como diz a atendente absolutamente normal (apenas uma pessoa normal lê tanto Paulo Coelho como ela), é um prato cheio para um louco escritor como eu. Senão, vejamos:
Na última quarta-feira, estávamos:
1. Eu
2. Um "crioulinho" muito bem vestido,
3. Um senhor de uns cinqüenta anos e
4. Uma velha gorda.
Comecei, é claro, imediatamente a imaginar qual seria o problema de cada um deles. Não foi difícil, porque eu já partia do princípio que todos eram loucos, como eu. (1). Senão, não estariam ali, tão cabisbaixos e ensimesmados. (2) O pretinho, por exemplo. Claro que a cor, num país racista como o nosso, deve ter contribuído muito para levá-lo até aquela poltrona de vime.
Deve gostar de uma branca, os pais dela não aprovam o namoro e não conseguiu entrar como sócio do "Harmonia do Samba". Notei que o tênis estava um pouco velho. Problema de ascensão social, com certeza. O olhar dele era triste, cansado. Comecei a ficar com pena dele. Depois notei que ele trazia uma mala. Podia ser o corpo da namorada esquartejada lá dentro.
Talvez apenas a cabeça. Devia ser um assassino, ou suicida, no mínimo.Podia ter também uma arma lá dentro. Podia ser perigoso.
Afastei-me um pouco dele no sofá. Ele dava olhadas furtivas para dentro da mala assassina. (3) E o senhor de terno preto, gravata, meias e sapatos também pretos?
Como ele estava sofrendo, coitado. Ele disfarçava, mas notei que tinha um pequeno tique no olho esquerdo. Corno, na certa. E manso. Corno manso sempre tem tiques. Já notaram? Observo as mãos. Roia as unhas.
Insegurança total, medo de viver. Filho drogado? Bem provável. Como era infeliz esse meu personagem. Uma hora tirou o lenço e eu já estava esperando as lágrimas quando ele assuou o nariz violentamente, interrompendo o Paulo Coelho da outra. Faltava um botão na camisa. Claro, abandonado pela esposa.
Devia morar num flat, pagar caro, devia ter dívidas astronômicas.
Homossexual?
Acho que não. Ninguém beijaria um homem com um bigode daqueles. Tingido. (4) Mas a melhor, a mais doida, era a louca gorda e baixinha. Que bunda imensa. Como sofria meu Deus. Bastava olhar no rosto dela.
Não devia fazer amor há mais de trinta anos. Será que se masturbaria? Será que era esse o problema dela? Uma velha masturbadora? Não! Tirou um terço da bolsa e começou a rezar. Meu Deus, o caso é mais grave do que eu pensava. Estava no quinto cigarro em dez minutos. Tensa. Coitada. O que deve ser dos filhos dela? Acho que os filhos não comem a macarronada dela há dezenas e dezenas de domingos. Tinha cara também de quem mentia para o analista.
Minha mãe rezaria uma Salve-Rainha por ela, se a conhecesse.
Acabou o meu tempo. Tenho que ir conversar com o meu psicanalista.
Conto para ele a minha "viagem" na sala de espera.
Ele ri... ri muito, o meu psicanalista, e diz:
- O Ditinho é o nosso office-boy.
- O de terno preto é representante de um laboratório multinacional de remédios lá no Ipiranga e passa aqui uma vez por mês com as novidades.
- E a gordinha é a Dona Dirce, a minha mãe.
- E você, não vai ter alta tão cedo...


Snow, repassando.

quinta-feira, janeiro 17, 2008

Lavagem do Bonfim

Calcinha? Eu vim com duas.
Um absorvente interno, um externo,
Um biquini
E um short por baixo da saia...
Isso tudo vestida.
Na bolsa uma calça jeans e uma sandalia baixa...
Esparadrapo, band-aids, crédito no celular, preservativos...
Usei tudo.
Menos os preservativos.
E ainda assim estou fudida.
Apesar do Engov e da Dipirona...
Na saída o vendedor de cerveja me veio com o slogam:
Quem tem fé bebe!
E eu saí seguindo o cortejo, fitinha branca no braço, colar do Gandy no pescoço, cheiro de alfazema... atrás do Jegue Eletríco até a Colina Sagrada...


Snow, descobrindo à cada dia q viver é melhor q teclar.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Cafe Beat

Recito poemas ao vento - e alguns são lindos - e nem todos são lamentos.
Sussurro belas frases em travesseiros acompanhadas de lágrimas q não serão compreendidas
Ando por aí cortejando a grama, os insetos, bendizendo as estações, o tempo, o clima
Sorrio para o infinito ou para o fundo de pára-brisas parados aonde alguém imaginário me decifraria... através das películas
Estréio sorrisos e ensaio passos tentando acompanhar o ritmo... por demais acelerado.
Penteio e passo as mãos nos cabelos, perfumes, batons, sombras, óleos, florais, tornozeleiras, hidratantes, brochinhos, olhadas descompassadas ao espelho...
Enfeites de uma horinha a mais no salão, de uma sandalinha com strass, de vestidos, gliter, delineadores e colares.
E Sol. Para incentivar a melanina...
Enquanto bocas desfilam na música alta aonde ninguém me olha, sequer escuta.

Ninguém vê a menina
Pensando num namorado...

Lá pelas tantas, um dos q beberam demais grita um desabafo: Aqui só tem viado!

E o restante é tudo puta.


Snow, noite dessas aí.

sábado, novembro 24, 2007

Cisco

Fizesse sol, pareceria suor escorrendo pela face.
Chovesse, taria tudo explicado.
Mas era mormaço...

E ninguém entendeu a vermelhidão daqueles olhos inchados.


Snow, de volta.

domingo, novembro 11, 2007

Nova Postagem

Eu descofio q ando feliz esses tempos...
E deve ser por isso q nao tenho escrito.
A felicidade me faz ficar sem palavras.

Snow

segunda-feira, outubro 08, 2007

Pacotes

Qnd viajamos, ao chegar no local do nosso destino, a gente sempre acha q levou menos coisas q o necessário, pois é nessa hora q nos vemos na ausência de objetos q, em casa, sempre disponíveis, não damos o devido valor.
O inverso acontece na hora de voltar, qnd chega a hora em q percebemos q levamos coisas demais e os compartimentos da mala já não suportam o q precisa ir para casa.
Normal. Até pq as roupas, agora sujas, não têm o mesmo volume de qnd limpas e passadas, e já não temos tempo ou não estamos sóbrios o suficiente para acondicioná-las. Além disso, há sempre alguém q nos dá um presentinho, uma fruta, uma lembrança, um algo para levar: “tome, dê para sua avó.”. E tem também aquelas coisas q a gente termina comprando por lá para satisfazer alguma necessidade local: um doce exótico; uma comida típica; um tipo de biscoito q só é feito ali... ou para satisfazer uma necessidade sem localidade: uma planta q a gente já queria há muito tempo e encontrou de repente; um cartão; uma lembrancinha da terra; um artezanato do lugar... Isso tudo somado ao frasco de shampoo adquirido pq o usual foi esquecido, um tubo de creme dental com escova de dentes, pelo mesmo motivo, um pente, o estojinho da lente... E sem contar a toalha molhada, a sandália suja em saco separado, os bolsos com guardanapos, papéis de bala, embalagens de chocolate... e por aí vai.
Dessa forma só nos damos conta de q é preciso arrumar tudo para uma nova viagem na hora de voltar... qnd olhamos para o canto e vemos nossas coisas perto da bolsa, ou dentro, ou em fila.

E assim, na sacola dele ficou o perfume, o vestido, o biquíni e os sapatinhos dela.
Já essa daí, voltou cheinha de amor.
Não coube na mochila.


SnowFlake

domingo, setembro 30, 2007

Medida de Segurança

Correr o risco de ficar...
...Perto de vc,
Já me faz sentir segura.


Snow, desarmada.

segunda-feira, setembro 24, 2007

Retrieve

Eu queria ter escrito algo.
A impressão q tenho sempre é q tenho sempre tanto a dizer/explicar e tão pouco tempo para ser entendida antes q o tempo acabe q eu faço sempre a mesma coisa errada: tento dizer tudo.
Eu não sei como evitar coisas assim. Escrever cartas, e-mails, papéis, posts e coisas para serem lidas...
Seria bom substituir tudo por encontros.
Por olhos, boca, mãos.
Mas isso não vem assim.
Ou pq eu não deixei q viessem, ou pq deixei.
Assim mesmo. Sei q lendo parece paradoxo, mas relendo tem sentido.
E eu releio. Eu reescrevo. Eu relevo.
Eu, eu, eu.
Eles, muitas vezes, nem lêem.
Eles guardam, deletam, deixam no bolso qnd não tem jeito, ou em uma pastinha/caixinha q eu já, de antemão, providencio para guardar as leituras q já existem junto das q virão.
Dos q lêem, vale separar os q tentam/conseguem entender, dos q não chegam nem perto.
Os últimos eu identifico pq não fazem referência.
Os primeiros, eu não identifico.
Há para todos o abismo da ilegibilidade das minhas letras, a confusão dos meus pensamentos e o medo q, sem querer, aparece por trás das cortinas mais q os atores...
O medo q acabe
Tudo
Antes do ponto final
Ao medo, e não aos meus amores, eu devo todas as minhas pautas. Cada página, cada palavra.
O medo insólito do dia em q eu vou, simplesmente, ficar calada. O dia em q não terei sequer um olhar pra ser compreendido, lábios para serem decifrados, nem mãos cheias de linhas... como estas minhas.
Este, q talvez tenha um pouco menos de medo, quem sabe não mereça a prolixia das minhas idéias soltas tentando formar frases.
Talvez mereça menos escritos, menos mensagens de celular, menos cartões e cartas
E eu ia escrever-lhe um e-mail agora
Mas talvez, apenas talvez,
Ele não precise entender nada.


Snow, em mais um parêntese desnecessário.
P.S. "Escervo, não pq tenho, e sim pq me falta.
Escrevo pq tenho sede e não pq tenho água."
Tá assim entre aspas pq eu tenho a impressão q já escrevi isto antes, assim, com estas mesmas letras.

quinta-feira, setembro 20, 2007

Melhoras

Vi num programa uma vez q a felicidade alheia, a capacidade de se alegrar com ela é o q nos faz amigos. Já a capacidade de ajudar nos momentos tristes, a q tanto atribuímos valor é uma característica, qse um instinto.
Assim como as formigas q carregam seus mortos e os elefantes q constroem cemitérios, nós choramos a perda de uma celebridade estrangeira, sofremos com a fome alheia e nos debruçamos na janela do ônibus para ver um acidente com vítimas.
Um "ombro amigo" já é uma expressão tão comum q parece q já nasceram ligados assim em nossa língua, como "café-com-leite", qnd a palavra provém da coisa. A ajuda na hora da necessidade, q no nordeste a gente chama de "precisão"... Aqui cabe um parêntese interessante: uma vez me corrigiram sobre o uso desta palavra "precisão", ao q me advertiram substituir por "necessidade"... Mas eu sei q precisão é diferente de necessidade, então não disse nada. Não haveria como precisar, nem seria preciso.
Hj eu tive dificuldade em dizer pq parecia triste. E eu até conhecia bem as palavras dessa vez mas... pra quê?
"Um dia ganharemos $ e vai ficar tudo bem. Ou pelo menos vai parecer."
Foi a resposta mais coerente q encontrei. Pq não sou muito boa com respostas rápidas.
Então, voltando ao programa de tv (q lembrei agora se tratar do Café Filosófico da TV Cultura exibido num final de domingo), eu fiquei bastante preocupada qnd vi aquela psicóloga lá falando sobre amizade e dizendo o contrário de tudo o q eu acreditava sobre ser amigo e ajudar nas horas de tristeza, tirar os espinhos, carregar nos braços nas cenas dos momentos difíceis da vida a ponto de não deixar pegadas e tal... e eu já ia desligar pq tava achando tudo uma palhaçada qnd ela finalmente explicou q os amigos são aqueles q são capazes de se alegrar com as nossas conquistas e q o resto, até um desconhecido, até um bicho, de repente poderia fazer... seja para garantir a preservação da espécie, por mimetização ou qlq atitude q a gente classifica como solidariedade.
Mas pra ficar feliz com a sua felicidade, só sendo seu amigo mesmo.
Eu hj andei lendo umas coisas aqui e me entristeci.
Muito provavelmente por descobrir q sou bem menos amiga do q imaginava.
E por extensão tanto menos amiga qnt mais apaixonada.


SnowFlake

quarta-feira, setembro 12, 2007

E enquanto isso no espaço reservado ao dever de casa...

"Mãe, nossa criancinha está brigando na sala.
Brigou hoje, brigou ontem também."


Snow, titia q ficou em dúvida se lia um Diário de Classe ou um Boletim de Ocorrência.
Mas q logo entendeu q era coisa de professora primária, já q ocorrências... não retroagem.

Sisos

Insônia, noite chuvosa, falta total do q fazer, uma dorzinha de dentes amenizada a ácido acetilsalecílico, papel, caneta, um pouquinho de amor pra dar, esta distância enorme q me separa de vc, além de umas duas ou três coisas q vão ficar por aí soltas pra um bom psicólogo adivinhar ou pra eu contar pra um amigo qnd puder conversar e, é claro, todas as demais inferências, tão sem sentido qnt qlq hipótese bastante sensata... desconfio q uma mistura dessas coisas ou uma delas em especial é o q me leva a escrever.
E às 3 da manhã! Tem sempre q ser às 3 horas, qnd já é mais de meia a madrugada, qnd os outros já foram dormir, qnd eu já devia estar saciada, qnd os telefones todos q se prezam já se encontram na caixa, qnd não tem ninguém pra me ouvir...
O bom é q minhas insônias são qse sempre lacrimejantes, são sempre poéticas, sempre acompanhadas de um fundo romântico e eu fico aqui destilando coisas q já não latejam tanto, mas q qnd eu tinha metade da idade q tenho hj, recordo-me bem, não haveria AAS algum capaz de fazer passar...
E eu fico aqui pensando qnt mesmo custará um plano odontológico... Não aquele q eu tinha e q tinha q esperar um mês para ser atendida, para q a dentista fizesse o novo desgaste seletivo, para q só depois visse a próxima cárie da lista, mas um de verdade, Sênior, Master, Gold, Vip, pra q eu possa resolver todos os meus problemas em um dia, ou um por vez, como for, mas q resolva todos. Q restaure, periodontize, endodonte, fluorize, calcifique, ionomere, exodontize...
Quanto custará a desgraça da anestesia às 3 da madrugada, qnt me cobraria o infeliz com um alicate para extrair de mim cada polpa, enfiar uma estaca e matar cada nervo, cada raiz q doa e depois pintar com um novo esmalte cada bloco, cada coroa...?
Talvez, se eu puder arrancar todas as dores q me ferem agora, todas:
Das incisivas às molares...
E nada mais me machuque,
Quem sabe sobre mais espaço pra q a saudade
Somente a saudade,
Me corroa.


Snow, agenda de dias em branco, sem anestesia.

Gafe

Lembro com nitidez o momento em q a professora, entretida em sua aula sobre o processo de memorização do cérebro, foi interrompida pela duvida discente:
“Professora, a gente tem estudado aqui técnicas de armazenamento, evocação e tal, mas e o contrário, e se a gente não quiser lembrar... como é q faz pra esquecer?”
Neste instante seus dois enormes olhos azuis pararam no ar e ela respondeu como se tb surpresa pelo som do q dizia:
“Eu não sei.”
Claro, professora e terapeuta cognitivista q era, ela refez sua resposta depois, como alguém q se recompõe de um tropeção:
“É claro q o q a gente faz no caso de uma experiência ruim, um trauma ou uma lembrança forte q não convém lembrar com tanta intensidade – pq terminaria interferindo no restante da vida do paciente – é... tentar trabalhar esse conteúdo para q a pessoa venha a encaixá-lo e dar uma nova importância a ele (...) blá, blá, blá... e blá.”
(Esses últimos blás aí não entraram na minha exatidão mimética pq os considerei altamente dedutivos.)
O fato é q aquela aula no meio do nada marcaria uma parte da minha vida q até então talvez fosse melhor permanecer imaculada.
Eu q sempre imaginei q os pacientes procurassem tais profissionais das ciências humanas com o propósito mais de esquecer q de lembrar e q esta parte, por tão importante q fosse, seria disciplina de semestre mais avançado, para quando eu tivesse mais maturidade para compreender e algum outro pré-requisito acadêmico para cursar, descobri, assim na lata q... não há resposta, pelo menos ainda.
E eu q sempre vira a Psicologia como uma exuberante dama a desfilar alta classe sob olhares admirados, flashs e sobre saltos, imaginei q se porventura me fosse dado o presente celeste de vê-la longe de tanto gliter e com um pouco menos de maquiagem, ela se comportaria melhor ainda e passaria de humana a semideusa, sobre-humana... nua, revelando as mais belas e perfeitas formas divinas.
E foi mais ou menos no meio do segundo semestre do curso, na primeira metade do semestre passado, q a Psicologia q até então sempre me sorria, após o rompimento daquela pequena e qse insignificante alça q lhe expôs o seio em plena passarela...
perdeu,
paradoxal e inusitadamente,
parte da sua graça.


Snow, meio assim também.

terça-feira, setembro 04, 2007

Conflito de software

-Sim, e o q vc faz da vida?
-Olha, no momento tô sem trabalhar, mas eu tô procurando emprego. Eu sou programador.
-Q legal!! E vc programa em quê mesmo?
-Eu programo em Windows.
-Ah, sei...


Snow, num trecho de uma conversa com um ex-pretendente q nunca entendeu bem pq q, simplesmente, não rolou...
Acho q a gente não falava a mesma linguagem.

sábado, agosto 25, 2007

Um, dos outros

Sem
(By Audrey F.)


Ela escreve porque não tem um grande amor. Se tivesse, não compraria canetas e blocos. É triste não ter um grande amor. As pessoas que não têm um grande amor freqüentam mais as livrarias. Vez ou outra, ameaçam olhar por cima da prateleira de livros, com a vaga sensação de que, do lado de lá, naquele exato instante, alguém arrisca o mesmo olhar.

As pessoas que não têm um grande amor também podem ser vistas em bancos de concreto e nas filas do cinema. Uma vez, um amigo me contou que viu uma pessoa sem grande amor comprando flores numa daquelas bancas da Doutor Arnaldo. Ela tinha um sorriso postiço, ele me disse. E contou que, intrigado, decidiu seguir a tal pessoa. Ela atravessou a faixa de pedestres ainda inteira com o maço de amarelos e vermelhos berrantes nos braços. No canteiro, deu sinais de que iria desmontar e, na esquina, a pessoa sem grande amor já segurava o maço com uma mão só e usava a outra para enxugar as lágrimas.

Eu também soube de um caso de uma pessoa sem grande amor que freqüentava padarias. "Bom dia, Sandro. Melhorou da gripe, Oswaldo? Um pingado bem clarinho, Tina." Era tão simpática que ninguém desconfiava. Só teve um dia em que deixou o pão com manteiga pela metade e saiu sem se despedir. O pessoal estranhou, mas ninguém percebeu mesmo que era uma dessas pessoas que não têm um grande amor. Uma coisa é fato: elas gastam mais tinta de caneta que as outras, as que têm um grande amor. Sim, porque estas podem dar-se ao luxo dos bilhetes. Três ou quatro frases e fica tudo dito. Já as pessoas que não têm um grande amor precisam se dedicar às teorias. E lá se vão páginas e páginas para arranjar argumento que explique porque é que tal pessoa não tem um grande amor. E tudo nas entrelinhas, claro, porque não se pode ser tão objetivo com essa coisa de não ter grande amor.

Sei de uma moça que descobriu de cedo o problema. Lá pelos 7, desatou a gastar o dinheiro do lanche da escola com tinta nanquim, caneta bico de pena, caderno mais bonito. Depois, ela cresceu. A última vez que soube, ela estava sentada no ponto de ônibus com ares de que, a qualquer momento, o seu poderia chegar. Os que têm um grande amor, é fato, não ficam tão tensos no ponto de ônibus. Parece que têm menos o que esperar. As pessoas que não têm um grande amor, imagine, esperam tudo num ponto de ônibus. Até o cobrador é potencialmente amável.

Uma tia me disse que, quando ela era criança, uma pessoa que não tinha um grande amor desapareceu, assim da noite para o dia, depois de um vendaval. A mãe dela dizia que a tal pessoa sem amor jurava que o portão estava batendo e que não era por causa do vento. Foi para a varanda e, zupt!, desapareceu. A mãe da moça disse que era o grande amor dela no portão, mas, na dúvida, o pessoal espalhou que era o vento mesmo. "É mais fácil o vento levantar uma pessoa do que o grande amor buscar a gente no portão", minha tia disse.

Eu acredito. A última pessoa que eu conheci que tinha um grande amor era no cinema. No mais, é só pessoa que não tem grande amor, feito ela. Ela que escreve e freqüenta mais as livrarias e, vez ou outra, ameaça olhar por cima da prateleira de livros, com a vaga sensação de que, do lado de lá, naquele instante, alguém pode arriscar o mesmo olhar.

***

Snow, q anda meio sem escrever nada.
E não sabe explicar o pq mas, desconfia q as pessoas q não têm um grande amor tb devam ter lá os seus momentos de parecer q não o têm mesmo.

sexta-feira, agosto 03, 2007

Uma canção pra quebrar o gelo

Teresinha

Letra e música: Chico Buarque
In: "Ópera do Malandro", 1978

O primeiro me chegou
Como quem vem do florista
Trouxe um bicho de pelúcia
Trouxe um broche de ametista
Me contou suas viagens
E as vantagens que ele tinha
Me mostrou o seu relógio
Me chamava de rainha
Me encontrou tão desarmada
Que tocou meu coração
Mas não me negava nada
E, assustada, eu disse não

O segundo me chegou
Como quem chega do bar
Trouxe um litro de aguardente
Tão amarga de tragar
Indagou o meu passado
E cheirou minha comida
Vasculhou minha gaveta
Me chamava de perdida
Me encontrou tão desarmada
Que arranhou meu coração
Mas não me entregava nada
E, assustada, eu disse não

O terceiro me chegou
Como quem chega do nada
Ele não me trouxe nada
Também nada perguntou
Mal sei como ele se chama
Mas entendo o que ele quer
Se deitou na minha cama
E me chama de mulher
Foi chegando sorrateiro
E antes que eu dissesse não
Se instalou feito um posseiro
Dentro do meu coração


Snow, q considera os bichos de pelúcia o seu ponto franco mais forte.

Questão de Prova

Rafael me disse para não começar frases dizendo q acabou.
E eu me pergunto por onde andam as minhas amigas mulheres.
Felipe me pergunta se tenho novidades. E eu respondo q tô fudida. Mas q isso não é novidade nenhuma, faz tempo.
Gabriel me pergunta pelo trampo. Eu digo q vou processar umas pessoas aí. Tudo jurídicas.
Um novo amigo de um velho amigo pergunta pq acabou. E eu não respondo a verdade... Talvez pr ele ser poeta, like me.
Minha mãe me pergunta o q eu tanto faço na rua.
Meu sobrinho me pede q prometa voltar pra assistir a um filme com ele. E eu prometi.
O vendedor me pergunta se eu quero um cartão de crédito.
Um cobrador me pergunta se eu quero agendar.
O psicólogo me olha, como se fosse perguntar.
Meus colegas me perguntam o q deu errado.
Minha avó me pergunta se eu vou voltar. Presumo q sim.
Rogério não pergunta nada. Sorri.
Minha irmã me pergunta pelo ex namorado.
O ex quer saber do novato.
E ele não tá nem aí.
O diretor me pede o laudo.
O doutor quer o parecer.
Ela me pede a receita.
Eu acho q deve haver alguma coisa errada, mas não digo nada.
Amigos me perguntam "e aí?".
Fábio pergunta se tá tudo bem comigo e eu respondo q sim.
Diana diz q vai dar tudo certo, assim q eu sair.
Paulo quer o número do celular. E eu só tenho o chip.
A atendente me atende mal, pra variar.
Soube q Luiz perguntou por mim.
A galera quer saber se eu vou trancar.
Meire me pergunta alguma coisa sem resposta de uma situação psicológica.
A secretaria quer saber se eu vou assumir.
Leonardo, se ele pode vir.
Vânia, Cristiane, Lucy, Ray, Jane, Valnei, Geléia, Quick, Anderson, Dany, Bety, Marli, Júlio, Bruno, Mara, Kare, Sérgio, Mary...
Tem quem queira saber por saber
E eu nem sempre respondo por mim
E fico aqui me perguntando
Pq será q eu digo alô
E vem de lá um " q foi, amor?"
Daquele jeito
Tão assim...

P.S. Os nomes foram trocados, mas tá todo mundo aí.
Pós P.S. Aos q foram citados ou se sentirem tocados, se doerem, enfim, a lei aqui os assegura o princípio do contraditório, o direito de resposta e a ampla defesa.


Snow, sem rendimento (aproveitando um parêntese de Milton, a ambigüidade foi proposital aqui).

Antagônico

Eu não gosto de coadjuvantes.
E também não gosto de reservas, nem de steps e nem de planos b.
Mas me incomoda o momento em q a música de fundo fica mais alta q a dos diálogos.
Eu gosto de cinema nacional, de comida baiana, do time q tem o nome do meu estado, do trânsito de pedestres do meu bairro, do acarajé q vende na minha rua, do tempero da minha casa, do banho no meu chuveiro, da textura da minha cama, do cheiro do meu travesseiro...
Mas eu tenho sempre tão pouco tempo pra fazer vc lembrar de mim o resto do tempo inteiro q eu acabo por demorar... mesmo.
Eu prefiro as coisas q não começam às inconclusas.
E pra vc ter uma idéia eu gostaria de voltar ao início e refazer todo este texto. Mas vai assim mesmo.
Eu gostaria de acreditar q vc não se incomoda com as reticências q se seguem aos começos...
Mas percebi q esse seu jeito de ter sempre um ponto final guardado pra depois das minhas vírgulas, ultimamente, tem me deixado sem palavras.

Que nem qnd a gente cai e olhando em volta percebe q ninguém mais viu nada.


Snow, sobre contradições, sobre opostos, sobre q eu nem sei quem sou.

Com adaptações, mas sem cortes.

-O q faz uma dama, à esta hora, na rua?
-Tô aqui, fudida.
-Tá vendo, por isso q ninguém corteja.
-Ah, era uma cortesia...? Perdão. Vou responder:
"Oh, eu me atrasei um pouco, gentil cavalheiro. Mas não foi de todo ruim pois pelo menos pude ter o prazer de encontrá-lo! Poderia me conceder a honra da sua companhia até em casa?"
-Eu não acompanho mulheres à esta hora. Elas costumam cobrar.
-E o q vc costuma fazer à esta hora, não pagar?
-À esta hora eu costumo estar dormindo.
-Sim, claro, compreendo perfeitamente. Eu mesma, se tivesse a sua idade (econômica) iria pra cama cedinho. Assim q me désse vontade.
-Ah, mas vc não imagina (com essa minha idade econômica) quanta vontade eu sinto!!!!!!!


Snow, q às vezes pensa q esse pessoal ensaia antes de entrar no msn.

quinta-feira, julho 26, 2007

Vista Grossa

Eu gosto de olhar pro sentido q tem as coisas, sabe? Olhar bem de perto. E ficar vendo o seu formato mudar conforme as circunstâncias.
As circunstâncias sim, me parecem as coisas mais imutáveis e ininterferíveis q eu conheço.
E é um pouco engraçado qnd a gente fica tentando esconder elas com as palavras. Elas vão aparecendo, sabe? Entre as frestas. Q nem criança q ainda não aprendeu a mentir. As circunstâncias estão todas ali, rindo da cara da gente.
E ficam os seres humanos usando todo esse vocabulário com a pretenção ingênua de dizer algo... como se as circunstâncias por si só já não o gritassem.
E fica aquele silêncio do depois olhando pras pessoas numa tentativa de lembrá-las o qnt, queiram ou não, são todas humanas.
E nisso ele me disse tanta coisa q eu fiquei me questionando se Deus teria a competência suficiente e necessária para resolver o meu problema.
E o verbo no futuro do pretérito veio involuntário ao pensamento. Voltei 24 anos no tempo a uma mesa de operação antes de um erro médico. 28 antes de dois gametas se tornarem um óvulo. Algumas eras antes da primeira bactéria, algum segundo antes do primeiro "fiat lux"...
Qnt a isto ele pôde ser bastante claro: "Não há luz!"
E mais uma vez, no meio dessa história toda,
As minhas vistas escureceram.


Snow, no túnel.

quarta-feira, julho 25, 2007

Pronunciamento

E eu fico aqui me perguntando
O q deu na cabeça do criador
qnd ele resolveu botar tanta coragem
num ser humano tão fraco
como eu...
(?)

SnowFlake

sexta-feira, julho 20, 2007

Um trechinho

(Pablo Neruda)

O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato

(...)



Snow, 2day.

quarta-feira, julho 11, 2007

Prólogo

E aquela minha psicologia toda q eu vinha guardando pra ocasiões como esta,
Nem manter meus pés firmes no chão,
Soube fazer com competência.


Snow, depois.

Função

Ah, mas serviu sim!
Serviu pra desbancar aquela velha segurança exacerbada de lá de q algumas condições são imutáveis.
Serviu pra ativar aquela mais velha ainda esperança de cá de q certas coisas não precisam ser desta maneira.
Serviu pra desestruturar o desânimo
Serviu pra reorganizar a estima
Serviu pra dar um refresh na fé
Serviu pra reativar o ego
Serviu pra reascender a beleza
Serviu pra desorganizar a insegurança
Serviu pra rejuvenescer a ansiedade
Serviu pra recarregar o friozinho na barriga
- E aquela blusinha q mostra um pouco dela, nisto também serviu -
Serviu pra remarejar os olhos
Serviu até pra revitalizar os cabelos - ora veja!
Serviu pra rebronzear o corpo, reascender a marquinha e aproveitar o ensejo para diminuí-la!
Serviu pra dar destino a um par de ingressos antecipados pro cinema
Serviu pra usar o saltinho guardado junto ao vestido de alça
Serviu pra lembrar do perfume de festa esquecido no armário
Serviu pra mudar o contorno da sobrancelha
Serviu pra endereçar as mensagens de celular, há muito q anônimas, neste universo de bytes q se deleta
Serviu pra abrir o sorriso, os braços, as pernas, a cabeça, o coração e a alma...
Serviu pra abrir também os olhos!
E serviu pra fazer desenhos na agenda...
Serviu pra escrever umas linhas nuns posts
Serviu pra suspirar tal qual cantor em música sertaneja
Serviu pra rir uma latinha e tossir um L.A. inteiro à espera de um telefonema
Serviu pra relembrar o gosto de um IceKiss de menta
Serviu pra tanta coisa...
Q, sinceramente,

Eu me dei por satisfeita.


Snow, ponto.

sábado, julho 07, 2007

Pressentimento

Eu senti falta de vc... uma faltazinha estranha.
Meu velho medo infantil cresceu... diz ele q agora é adulto.
Acho q vc não vai entender... e tem toda razão.
Receei q vc sumisse... do mesmo jeito q os fantasmas aparecem.
Hj, qnd vc ficou... assustou-me a possibilidade de q eu já tivesse ido.
Assim... sem.


Snow... Flake.

Presunção de Inocência

Eu ando fechando portas ultimamente
Ando olhando pros lados. Os três.
Ando batendo cadeados
Ando guardando segredos...
Ando calada.
Ando meia hora por dia na esteira
Vinte minutos na atlética
Dez de ergométrica...
Ganhar resistência
Ganhar massa
Ganhar o q resta.
Ando fazendo provas q andam sendo anuladas.
Tenho andado feliz e triste
Mistura complexa entre o temor e a coragem
Prudência e determinação...
Sobressalto.
Eu ando apertando cintos
Amarras, travas, trincos
Ando conferindo, contando
Recontando.
Ando tomando tanto cuidado q... desconfio q ande até correndo riscos.
Ando duvidando das evidências
Ando sonhando com circunstâncias q ainda não conheço
... Uma certa liberdade forjada.
Eu ando achando q vai ficar tudo bem...

Mas tenho andado assustada.


SnowFlake.

P.S Por medida de segurança os comentários para este post, se houverem, serão rigorosamente revistados.

domingo, julho 01, 2007

Cena 1: Beijo.

- Vc reparou q eu não parei de te observar?
- Não. Eu tava muito ocupada tentando não olhar pra vc.
- Vc é muito atraente pra mim.
- Ok, eu tb te acho bonito.
- :)
- Mas isso não é bom pra vc. Eu costumo me afastar qnd penso assim.
- Quem sabe não é isso o q tá me atraindo...


Snow, gravando.