sexta-feira, janeiro 16, 2009

Aurora

Apenas a escuridão a absorve.
Vagueia pelo caminho das árvores e colinas cheias de mistérios procurando por algo vivo, enquanto é tempo.
Nada mais além de andar como se de olhos fechados aonde o calor vem do sague que jorra por entre os lábios. E alimenta...
Sente sede e fome. O mais, há muito que esqueceu o gosto.
Já não sabe o quanto de humana carrega ainda desde a última vez que se viu num espelho. Está fria, faz tempo que já não reflete.
E enquanto os dentes roçam a carne ávida por ser devorada ela crava, sorvendo o que pra muitos deve ser vida.
Uma eternidade se passou desde que fora criada. Já não faz mais aniversário. Pouco importa se haverá lua, chuva, frio, calor, nuvem, estrelas... O único tempo que existe é a madrugada.
Se esconde da luz, foge da cruz, já não tem alma.
(Não entende porque ainda chora.)
Gosta do mar, da areia, do vento... Mas sua pele sensível se incineraria ao sol, numa praia.
Não respira, não cresce, não gera, sequer morre...
É assim que vive.
Só vive enquanto está escuro, só existe se anoitece...

E nos demais dias ela dorme.


Snow, shadows.

terça-feira, janeiro 06, 2009

Rechargeable Mosquito-hitting Swatter

Comprei uma raquete elétrica inseticida, dessas que os camelôs de todo o Brasil, imagino, resolveram importar de Taiwan ou de algum outro país que escreva em ideográficos.
Já havia experimentado uma vez e vi que a eficácia é realmente surpreendente, pois como consegue produzir uma tensão de saída de 2500V, o mosquito, ao encontrá-la, deixa apenas um cheiro de churrasco carbonizado no ar.
É certo que também dá uns choques na pele, se está ligada e encontra uma parte do corpo desprotegida. - Achei essa parte perigosíssimo para as crianças, embora pense que se na infância tivesse tido a felicidade de encontrar tal brinquedo, como não seriam mais radiantes as minhas tardes quando eu teria sido a mais invencível caçadora de mosquitos da galáxia!
Mas o que me motivou agora a adquiri-la foi mesmo esse verão que chegou com as suas peculiaridades da estação e que trouxe coisas que nunca tinha visto de tão perto quando ainda havia pessoas ao meu redor pela casa cuidando das coisas que eu nem notava.
Desta vez, os mosquitos vieram junto com o calor, de modo que já não posso abrir as janelas ou a porta sem ser obrigada a usar algum tipo de combate/proteção.
O ventilador existe, mas está ali no canto, na caixa ainda. Aguardando por ser instalado pelo filho do dono da casa e me lembrando com a sua impossibilidade que a casa não é exatamente minha. Nada é exatamente nosso – algum deus ou demônio já nos deve ter feito crer nisto. Mas, como esquecemos nossas crenças por algum hábito, um ou outro sempre arranja algum jeito material de nos lembrar.
Inseticidas também são muitos. Espalhados pela casa aos litros, em cada cômodo, dado o incômodo que me causam estes pequeninos seres, por vezes, invisíveis. Mas acontece que dei pra ter alergia aos que não são à base de água... E os que dizem que não têm cheiro também não me cheiram nada bem. Tentei aqueles que produzem fumaça, mas minhas roupas fedendo a incêndio no dia seguinte não compensaram não ter amanhecido toda cheia de picadas. Sem contar que a palhaçada toda não mata, só espanta os insetos que rapidamente se recolhem a guarda-roupas, gavetas e armários pra voltarem com mais fome mais tarde... Tudo fumaça.
Quando pequena, lembro de uma vez em que minha mãe comprou um desses que emitem um som inaudível aos humanos, mas que incomodam aos mosquitos, desses que são presos à tomada e a gente só troca o refil. Porém, não deu certo por dois motivos: a manutenção cara e amplitude de ação baixa. Dessa maneira, se era ligado no nosso quarto, os mosquitos atormentavam quem estivesse na sala além do que, essa exigência de sempre mais aparelhos e mais refis foi auto-eliminatória da tática.
Repelente é completamente desaconselhável pra ser usado no calor de quem prefere hidratante, mesmo os à base de água. Sem contar que o contato com os olhos que eles mandam evitar, é, por vezes, inevitável.
Por tudo isso a raquete veio bem a calhar. Exceto por um detalhe:
O momento do encontro do corpo com a tela eletrificada rompendo a rigidez dielétrica do ar produz um barulho, um tipo de “plackt” súbito, que me assusta e me vejo instantaneamente jogando tudo pra cima, ou deixando cair, ou gritando assustada, e sempre uma dessas três reações, de modo que ainda não consegui acostumar.
Tem algo a ver com a visão do poder fatal do objeto que mata.
A primeira vez que tive contato com essa sensação foi aos cinco ou seis anos, quando senti o peso da arma de meu pai, militar, voltando pra casa depois de um dia de trabalho. Aquele “deixe isso aí” determinado me fez sentir mais que o peso de uma taurus, trinta e oito, carregada. E eu deixei mesmo lá.
Há em minha cozinha um jogo de quatro facas que, por não cozinhar em grandes quantidades, mantenho na caixa ainda lacradas. Mas ontem um técnico esteve aqui pra consertar a geladeira... Foi a primeira vez que alguém estranho entrava em minha casa. E, por alguma estranha razão, eu me lembrei de guardá-las.
Os golpes fatais do Goshin também me despertam ao mesmo tempo a necessidade de aprender a neutralizar, ou atenuar. Embora no fundo eu saiba que... Pois é, tem certas coisas que a gente sabe que não dá pra ensinar.
Então a raquete está ali, do lado direito da cama, encima do criado que não fala nada, como uma bala engatilhada esperando vitimar...
Um mosquito, sabe? Uma coisinha de nada insignificante mesmo, que não fará falta alguma à natureza e cuja existência pode trazer uma série de transtornos à raça humana e contra a qual eu possuo o porte de uma, com toda a minha imodéstia infantil, poderosíssima e infalível arma...

Mas eu tenho medo de matar.


Snow. às moscas.

quinta-feira, dezembro 25, 2008

Note e Net

Estou neste momento me perguntando se esta imperativa tecnologia recém chegada me deixará pelos próximos dias fazer alguma coisa que não seja fazer apenas tudo o que eu não fiz a vida inteira?
Não, a vida inteira é exagero. Mas uns 13 anos é a minha conta desde que desejei ver um pouco mais de perto tudo isto do que ainda hoje não entendo quase nada.
São seis da manhã e eu não pude fazer outra coisa desde ontem à noite... hipnotizada, enfeitiçada. Diria, terrivelmente amaldiçoada como um viciado. E já estou me perguntando se haverá mesmo uma cura – o que a esta altura, já tenho dúvidas.
Pode até haver, mas por hora vou baixar todos os pequenos arquivos que armazenei em e-mails e vou ler todos os que não foram ainda lidos e vou transformar tudo o que for de caractere em byte. E quando tudo o que hover pra fazer esgotar, porque tudo o que é infinito satura, então eu desde já tenho medo que, dependente, não saiba mais o que fazer a não ser ser... on line.
Desliguei agora à pouco porque já implorava o corpo, mas a ansiedade não quer deixar dormir, nem comer – claro, comigo o verbo comer é o primeiro que vai pro espaço – logo as outras funções vitais ficam todas debilitadas até que o corpo obriga a parar. Mas deitada, sinto que sou uma extensão dos pulsos elétricos. Como quando a gente chega de uma viagem de barco. Vejo que não é à toa a expressão “navegar” ter se adaptado tão bem a este universo. Confesso que estou meio tonta.
Olhei agora à pouco pra o Nietzsche em cima da cabeceira, meu velho companheiro nestas últimas noites antes do sono, estava quase terminando... Senti pena dele. Quando será novamente que terei a paz de ler em papel aonde a figura não está ao alcance de um clique? Nisso o Nietzsche ainda tá na frente dos 4 últimos que comprei. Meu Deus o que será do Garcia Márquez? Pobre Neruda sem hiperlynks... Será que ficarão todos na cabeceira observando impassíveis o piscar das janelas através da minha íris...? Ou será que serão recolhidos ao armário pra liberar espaço pros hardwares...?
Agora sinto um pouco de culpa e pena dos artesanatos que tava fazendo faz pouco tempo e que já quase escrevi que “fazia”... Quando será que terminarei aquelas florzinhas...? Pelo desenrolar dos acontecimentos, parece que só depois do último backup.
Como uma criança que ganhou um brinquedo complexo, quero entender como funciona e isso exigirá a remoção de algumas peças... - É claro que não farei isto, também por causa da garantia, etc. - Mas a sensação de curiosidade, deslumbramento e receio são idênticas.
Acabei de me dar conta que este talvez seja o último post em folha de papel que escrevo. Porque em breve a tecnologia dos RSSs chegarão pela rede, em fonte padrão, quase no automático.
Não sei, não sei mesmo. Estou com muito medo desse negócio de gerenciar tarefas, instalar aplicativos e administrar.
Mas já botei a máquina em stand by e já agendei as próximas atualizações pra mais tarde. E agora estou com muito sono...

Preciso reiniciar.


Snow, virtual.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Ai, ai...

Toda esperança é uma presunção. Uma superestimarão de si ou do todo.
A esperança nasce do desejo e desejar é achar possível o que pode não ser.
Esperar é acreditar, ter fé. Seja por se achar merecedor apesar de difícil o objetivo ou por achar que o objetivo é fácil.
Ter esperança é "realizar" o talvez sob as melhores circunstâncias. É ver o ideal, é apostar na possibilidade. É desafiar a lógica às vezes e enxergar um túnel onde se tem cruzamentos. É entender que "só pode ser!" quando, na maioria das vezes, nem poderia... E encontrar mais um motivo pra agradecer a Deus, ao anjo-da-guarda, ao amuleto da sorte, ao orixá.
Ter esperança é eleger uma situação como melhor, embora pouco provável. Visualizar o caminho até o ideal. Andar por ele às cegas, sem a certeza se se afasta ou aproxima do acaso do encontro.
Pra se ter esperança é preciso não desejar detalhes. Só uma imagem difusa – sem este afastamento, seria impossível aceitar o “presente” quando este enfim chegasse.
É preciso deixar as lacunas para que a própria esperança as preencha. Sem as quais, ela ficaria de mãos atadas.
O paradoxo é que quanto mais a esperança esteja desfocada, maior a sua probabilidade de dar certo, se superados dois dos possíveis obstáculos que podem vir acoplados:
O primeiro, é que a gente pode não reconhecer o bem. E nesse caso acharmos que não era bem isso o que esperávamos;
No segundo caso, o bem pode não nos reconhecer. E aí ficaremos frustrados.
Na verdade, pra se ter esperanças é preciso desejar o mínimo possível, a menor unidade esperançável: um estímulo, um estado, uma sensação... Qualquer coisa de pessoal e subjetivo que se possa realizar com o material. Dessa forma será sempre emocionante quando tivermos conosco o algo tão almejado.
E olharemos nos seus olhos – se ele olhos tiver – e nossa alma ofegante falará pelos poros, pulmões e lábios:
Eu já sabia! Isto é tudo pelo qual há muito tenho esperado! E era exatamente assim, cada detalhe...

É... Tá explicado.


Snow, verde, verde...

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Olha que coisa mais linda!

Canção do floco de neve

Aquela que está inquieta
não se pode conter
com afagos,
Há um soluço preservado da festa,
há uma semente de flor
que brotou entre os cardos.
Aquela que foi escolhida
irá dançar essa noite com o rei.
Não a verei de arco-iris vestida
nem colherei sua lagrima
inibida
ela recebeu da dor uma lei.
Aquela que brilha, sem ofuscar
que ama com sutileza e ardor
irá embarcar para o bosque da vida
nas raizes do mundo acolhida
irá explodir em um carrosel multicor.

(Hiltom Leal)


Snow, mais cheia de graça.

terça-feira, dezembro 09, 2008

Adentrismo

Quando a gente passa a ter um cachorro não há mais como não alimentá-lo. Ou lhe damos comida sempre ou ele nos devora.
Desconfio que em nossa alma more também um cachorro que, independente do comportamento, da raça ou do grau de adestramento, sente fome. E avança se lhes tiramos o osso. E obedece se chamado pelo nome.
Se o cachorro da alma é tratado de forma irregular porém, ora com afagos, ora com hostilidade, temos aí um caso típico de desamparo aprendido. O cachorro aprende que qualquer que seja o seu comportamento, pode lhe sobrevir recompensa ou castigo.
Nesse caso, o nosso maior erro é não compreendermos isto. Porque, ao invés de como pensamos, a agressividade devesse ser paga com hostilidade e o contrário, reciprocamente com afagos, o cachorro de nossas almas tanto poderá abaixar as orelhas para um grito, quanto mostrar os dentes em resposta a um carinho.
Esse animal que, imagino, já deva vir com nossa alma, serve para que lembremos que o espírito não admite ser machucado pelo corpo em que habita.
Assim, o cãozinho dócil que protege a casa onde minha almazinha reside é espirituoso.

E embora eu nunca saiba se será com choro, gracejo ou rosnado, ele, se maltratado, revida.


SnowFlake

P.S.
Como o texto anterior ficou muito impessoal e eu não sou assim tão infinitiva, veio este adendo.

Aforismo

Por piores que possam parecer as conseqüências da vida social, elas não podem superar as do isolamento.
Quem tem animal doméstico certamente já pôde perceber o que acontece se ficam privados por algumas horas do contato com seus donos, pois eles tornam-se tanto mais dóceis e afáveis quanto maior for a ansiedade e a esperança de serem afagados e acalantados. Os de maior porte parecem ainda mais patéticos. Os menorzinhos, totalmente vulneráveis.
Já se a privação é maior e a distância é aumentada em tempo, eles se tornarão tão hostis e agressivos para qualquer tentativa de aproximação que, independente de ser compreendida a intenção do dono, poderá ser respondida com violência.
É por isso que, embora saibamos que as pessoas que vivem rodeadas de pessoas são também rodeadas de problemas, não se pode julgar seus comportamentos fúteis e seus laços efêmeros como piores do que os daqueles que não têm laço social algum porque não aprenderam a não dizer o que machuca ou não sabem suportar as frivolidades do outro.
Mais árduo ainda do que ser definitivamente deste ou daquele modo é quando os dois tipos casualmente se encontram.

O raso sente-se entediado frente ao profundo.
O profundo, diante do raso, sente nojo.


Snow, da série "Diálogos da solidão com a multidão".

sábado, dezembro 06, 2008

Confissão

Sempre que me sinto descoberta
Sinto-me também ré descoberta
Como se o flagra fosse também flagrante
E prova do meu crime de existir.

Tenho medo que me peguem evadida
Que me enquadrem, me aprisionem, me condenem.
E evito testemunhas oculares
Escondendo-me entre olhares evasivos
Restringindo todo o acesso a mim possível
Sob táticas e estratégia de segurança.
Dificulto toda forma de contato

(Excetuo a esta regra as crianças,
E aos que não se podem imputar qualquer contravenção)

Pros demais ando armada até os dentes
Limitando-os a não chegarem perto
Com restrições, percalços, contratempos.
Dificulto e dissimulo parecer inocente
A tudo quanto me interrogam eu lhes nego.
E todo o meu desejo é de escapar

Meu receio é que percebam que me entrego
Com a sutileza as vezes de um olhar...


SnowFlake

P.S. Foi como compor em outro idioma...
E sei que ainda vou editar diversas vezes.

Diversão e Arte

Alguma coisa no ato de comer me desmotiva.
Não sei se o sabor ou o meu despreparo ao preparar a comida, não sei.
Só sei que sinto uma fome ensandecida.
E vontade de comer zero.
Salvo algumas vezes em que como desesperadamente e chego até ficar otimista. Mas aí, logo canso. Do gosto, do cheiro... nada me dá mais prazer e sei que não pode ser sadio.
Morro de inveja dos devoradores de pratos. Desses que não deixam passar nada, matam e morrem por comida e depois ainda ficam com água na boca, um gostinho de "quero mais"... e repetem!
Sei que Freud explicaria num piscar de olhos. Mas prefiro Pavlov com seu cãozinho que salivava só de pensar...
Odeio ser tão magrinha, odeio! Embora os outros gostem... Não posso negar que quanto a isto ao menos sou mais feliz que as que odeiam ser tão gordinhas já que, depois de adulta, ouvi raríssimas criticas à minha forma esguia.
Ontem mesmo um cidadão me chamou de “mulheródromo”! Não olhei pra cara do cabra, acho até que inventou na hora esta palavra. Mas depois de alguns passos soletrando vi que esse era candidato a um dos maiores elogios que já recebi em matéria de polissílabo! Rs
Pensei depois que o fato de ouvir mais elogios que criticas de certa forma me incentivam pois não me acham tão mal por ser tão magra. Reforço. Pra mim, uma desgraça.
Só por isso sei que não sou anorexica. Mas por outro lado esse “só por isso” em nada me agrada.
Desde a infância tive o sonho de não ser tão magrela. Com o estirão da adolescência, então... vieram mais infinitos motivos: “magricela”, “vara-pau”, “seriema”, “papa-vento”... Lembro nitidamente que o menino que me colocou este último uns dias depois me pediu pra namorar. Era um moreno cor de canela com dois olhões verdes hipnotizastes que até hoje ainda consta da lista dos + + + do bairro... Mas eu não consegui perdoar.
Ao longo do tempo anotei algumas “simpatias populares” pra mudar esse meu quadro:
• Comer 3 bananas por dia.
• Comer farinha, muita farinha, encher o parto de farinha.
• Comer aipim, batata-doce, fruta-pão e inhame.
• Comer feijão antes de dormir.
• Comer doces e frituras.
• Comer coisas com alto teor calórico.
• Tomar muito refrigerante depois de comer.
• Comer salgado, depois comer doce.
• Comer rápido.
• Comer seis vezes pro dia.
É incrível como essas magias são mesmo bastante eficazes, mas... quem vai colocar o guizo no pescoço da gatinha?
Não tem aí nada que engorde que não seja preciso comer, não?
Ah, tem sim!
• Anticoncepcional.
• Deca, Megamass, Sustagem, Cobavital.
• Postafen e Buclina com Rarical.
Tomei doses cavalares. Overdosei e nada.
Falta tentar silicone... Mas não estou bem certa se terei cabeça pra ter corpo da noite pro dia. Prefiro pensar que será gradual, quase como se Deus assim tivesse feito. Ai, ai...
Aliás, tem um jeito! Há uma coisa que faz engordar sem comer. – Mas nesse caso teria que ser sem contraceptivos. – E eu não gosto de dar razão a Freud, sou behaviorista.
No Piauí tive a oportunidade de comer tatu. Legal mesmo tatu. Difícil é criar... e aí tem sempre um piauiense pra explicar que tem que fazer uma piscina, cimentar bem o chão, encher de terra e só depois colocar o tatu. Também lembram que é proibido caçar tatu. E criar, só com autorização do IBAMA. Mas se eles souberem que é pra comer, não autorizam.
Pensar em comer me tira a fome. Mesmo uma coisa gostosa como tatu, sabe? E eu vi os gominhos dele...
Até os vegetais! E mesmo os produtos industrializados como biscoito... ainda que de chocolate, aquela coisa boa que muita gente adora... Fico pensando no suor dos homens derramado... – e isso tem vários sentidos.
Já me vi muitas vezes pensando sob o ponto de vista do alimento. Ninguém merece virar, ah você sabe! Nem vegetais, nem carne, nem peixe e nem galinha.
Preciso de um divã!
Falando nisto, meu terapeuta anda muito ocupado com a tese dele de mestrado.

E eu se tivesse uns quilinhos a mais – não demais, um pouco mais – certamente já estaria mais bem resolvida.


Snow, slim. Pensando bem, quase de plasma.
Agosto de 2008.

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Pessoa

Como é por dentro outra pessoa

Quem é que o saberá sonhar?

A alma de outrem é outro universo

Com que não há comunicação possível,

Nem há verdadeiro entendimento.



Nada sabemos da alma,

Senão da nossa.

As almas dos outros são olhares,

São gestos, são palavras,

Supondo-se qualquer semelhança no fundo.


Entendemo-nos porque nos ignoramos.

A vida que se vive é um desentendimento fluido,

Uma média alegre entre a grandeza que não há

E a felicidade que não pode haver.


(Poesia de Fernando Pessoa, recitado ontem por Antonio Abujamra, Provocações.)



Snow, que apenas "colocou" o título e ouviu o poema...

É Primavera...

Aniversário do Blog.
Queria ter um blog todo colorido. Com fotos, gliter, pássaros voando no cursor, estrelas cadentes talvez... – Uma coisa ou outra pra não estragar. – Mas não sem nada, seco.
Fotos. Acho legal essa galera que arruma a casa. Filmes, música, ilustrações... Só que não deu certo. Tenho que confessar que não foi por falta de tentativas, e sim porque em matéria dessas coisas todas eu sou uma desgraça!
Também porque isso leva tempo e parece que é preciso uma máquina pra armazenar o arquivo original, não sei. Tem coisa que é difícil pra caramba fazer quando a única base é a lan house. Então foi ficando sempre pra depois.
O relógio ta quebrado. Deu um trabalho danado pra botar e já chamei o técnico umas mil vezes e nada. Continua na hora errada.
O contador, que era o que eu mais queria, não veio porque parece que é mais difícil.
Faz muito tempo que não mudo nada aqui porque tem coisas demais e eu não tenho nada disso em outro canto. Medo de mexer e quebrar, perder. A vulnerabilidade dos bytes on line é um dos fantasma que mais me assusta. Aliás, o nome...
Tento me acalantar por saber que nada é imortal, por mais que o ser humano custe a se conformar. Nada poderá ser preservado por toda a eternidade. A própria vida é provisória.
Dia desses vi um cachorro ser atropelado.
O cara freou, tentou parar, fechei os olhos, mas não pude deixar de ouvir o baque.
E os uivos desesperados do pobre que alguns segundos depois apareceu sangrando... Agora só podia contar com três das quatro patas.
Eu que o tinha visto alegre, brincando, pouco antes... é foda!
Nada me controla mais que a responsabilidade de preservar minhas faculdades. Sei que há um abismo indescritível entre o ter o não ter mais, ou o não ter tido. E há infinitas possibilidades de dar errado...
Por isso que não faria cirurgia de miopia, astigmatismo, essas coisas.
Por isso que não troquei ainda este layout.
Já ta na hora, é verdade, faz 4 anos. Mas as coisas já estiveram tão piores antes... Sinto até que deveria comemorar.
Mas a inspiração não veio.
Melhor, até que veio. Porém não bonitinha, enfeitadinha, engraçada.
A inspiração veio faminta, veio suja, rasgada. Adoecida de tanto frio e repulsa. De tanta falta que, suspeitei que seria melhor não mexer em nada.
Lamento mesmo que por aqui não tenha nada legal além dessas palavras desgrenhadas. Mais um ano se passou e eu não coloquei a porra dos passarinhos ou da estrela ali, pelos lados...
Mas é bom.

Menos um pra ficar assustado.


Snow, bodas de plástico.

P.S. O correto é bodas de flores e frutas, mas não cabe.
P.S.1. Era pra ter sido postado há 3 meses. O ruim de reciclar é que vc fica com uma cara que já não tem mais, mas que era mesmo a cara do texto.
P.S.2. Essa distância entre a pessoa e as palavras antigas tem seu ar de sadia.
Saber que embora fiel a foto, o rosto já não é mais daquele jeito...
Tal qual o cheiro das coisas que só a gente lembra.
Ou as bactérias da alma digerindo o beijo...

quinta-feira, dezembro 04, 2008

Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna...

Há coisas que não devem ser ditas antes de poderem ser ouvidas.
Essa frase parece óbvia, mas acreditem, é preciso algum tempo pra que possa ser compreendida em toda a sua profundidade. E esse tempo está bem longe da infância e da adolescência. Talvez até da idade madura. Sim, porque é preciso mais sabedoria pra calar que pra dizer.
Antes desse estado temos aí a “manha”, a “malícia”, a “experiência” que são precursores brutos da chamada “sabedoria”.
Há quase um mês uma vizinha me encontrou num ônibus e veio sentar do meu lado pra conversar comigo. Saber das minhas viagens, provas, concursos, de como vão meus estudos... O brilho em seu olhar quase me envaideceu mais do que me permito, porém tive que lembrá-la de que nada daqueles elogios muitos que me fez poderia ainda ser dito. Porque é ainda meio do caminho. Talvez pré-história, início.
É pelo menos assim que a Historia nos é contada. Existe sempre um modelo do que é “dar certo”, ser “bem-sucedido”, obter “êxito”, e dentro destes padrões e seus opostos é que se traçam os personagens e seus atributos. Quando eles conseguem é “revolução”, “conquista”. Se perdem é “revolta”, “motim”, “rebelião”, “tetativa”. E é preciso esperar. Até porque, as vezes, no meio, é impossível predizer o que virá depois de um tempo. Principalmente quando já vimos muitos começos se perderem...
Dos 17 aos 22 eu estive fascinada pelos começos. Adorava começos. Todos: um novo curso, uma nova turma, um novo encontro, um novo dia, uma nova possibilidade... todos eram flores!
Dos 23 aos 29 no entanto, me converti calorosamente aos meios. E danassem-se os fins! Ou o que tivesse ocorrido ocasionalmente para que fosse assim. Importava o que era, o que tinha, o que vinha sendo. Dar certo era sinônimo de ter tido um meio. Ter passado do começo por um caminho...
Também, começar havia ficado bem mais arriscado. Começar de novo então, meu Deus! Tudo menos o desconhecido! Já os velhos erros eram bem-vindos...
Alguma coisa parece ter mudado discretamente porque já não me sinto próxima do primeiro nem do segundo nível.
Sinto-me mais inclinada ao fim.
Um dia termina, sabe? Acaba.
E aí a gente vê se deu ou não certo. Mas antes desse ponto tudo é metade. É rabisco, é projeto... rastro.
E há coisas que ainda devem se manter impronunciadas.
É preciso passar o portão pra rir do cachorro, ter uma câmera pra falar das próprias fotos, pedir demissão pra mandar o chefe tomar no cu, sair de casa pra testar a potência das caixas-de-som, pagar a conta pra apagar as luzes...
Adolescentes pensarão ter mil e um argumentos pra cada uma destas frases/ períodos. Mas não usarão nenhum corretamente. Baterão portas, arremessarão pratos, dirão alguma palavra feia, um grito, uma evasiva.
Crianças não compreenderão. E nem todos os adultos. Porque idade não basta.
Eu já fiz coisas geniais com quase nenhuma prática. Mas já não quero mais fazer pedidos nem esfregar lâmpadas...
Nos próximos tempos, do esforço brotará o talento limado a ferro e fogo.
E depois do começo será meio até o fim.
Porque meu espírito de gênio já foi genioso demais comigo.


Snow, Idade Contemporânea.

P.S.
Este é novinho, tem uns 15 dias. Nasceu logo depois da certeza de que o anterior estava pronto, era parte do P.S. Mas aí ficou grande demais...
As metáforas vão ficando mais evasivas mesmo. É esse tal pós-modernismo.

P.S.1.
Um dia eu vou atrasar os textos só porque deu preguiça...
Ai, ai...

quarta-feira, dezembro 03, 2008

A minha Rolley-flex...

Queria ter fotos.
É. Essa coisa simples que a gente simplesmente deleta agora na era dos cartões de memória e que gosto tanto...
São provas, sabe? São quase fatos. São lembranças, são o momento congelado, a recordação...
Lembro-me que quando criança me olhava muito no espelho e principalmente quando chorava. Precisava ter um espelho pra abrir os olhos vez em quando e ver como ele me dizia que era, e não como me sentia de olhos fechados, já que a imagem que tinha de mim no escuro não podia ser fotografada - porque ninguém acreditaria ser minha... Então tentava o contrário. Usava o espelho pra acreditar que existia alguém diferente do que eu imaginava.
Ainda me olho muito no espelho. Alem da vaidade feminina, pra não perder o referencial. Senão o rosto que tenho é gradualmente sobreposto pelo resto do que sinto. Que penso que sinto.
Li uma vez numa página avulsa de um livro que um amigo lia que havia num certo lugar certos monges cuja ordem não permitia que vissem um espelho. Estes monges permaneciam por toda a vida sem nunca conhecer o que os outros sabiam dos seus próprios rostos. O objetivo da doutrina era que nunca precisassem confrontar seu eu imaginado (alma) com o eu físico (corpo).
É claro que parece uma grande utopia e não funcionaria comigo, mesmo que eu fosse uma monja enfim, porque tenho sempre um espelho comigo. Eu que me aproximo de tudo o que me reflete quase que como vicio. Dessa forma janela de carro, vidro, monitor desligado, maçaneta de porta, tampa de panela, verso de CD/DVD ou qualquer outra superfície polida me atraem como água. Poça d’água, no caso. Mas o modo de vida dos monges do livro, achei bonito.
Só não trocaria pro ter fotos.
Em especial dos lugares que queria ter ido, dos sorrisos que queria ter tido, das sensações que queria ter vivido...
Tenho cicatrizes, marcas, sulcos que margeiam o caminho percorrido por lágrimas. Isto não prova nada, sequer registra.
Deve ter havido coisas boas, é verdade. Coisas que só eu vi de olhos fechados. Mas que não eram o que o espelho me dizia.
Lembro de resmungos, reclamações, descontentamentos, vontade de não estar ali, ou de que não fosse eu quem estivesse... Lembro de ter ouvido gritos.
Lembro de frustrações inquestionáveis, de mal-estar, choro, estupidez... mal humor, grosserias, cenas tão nítidas...
Ele até que se esforçou pra fazer bem feito. Lembro do esforço - pra isto sempre há de haver em mim espelhos. Já as fotos, que contrastariam com as imagens que só eu tenho dele... elas não existem.

Nem ele.


Snow, janeiro de 2006.

P.S.
Esse texto tem quase três anos. Reli muitas vezes desde que foi pro papel e muitas vezes antes também. Em todas as releituras foi reprovado.
Dava um intenso mal-estar saber que ainda existia inédito por ser impublicável. Carregando cada vez mais o fardo insustentável do fracasso.
Nesse espaço de tempo em que vi todos os amigos, conhecidos e afins comprar câmeras, filmadoras, celulares e toda sorte de tecnologia retratável - foi-se o tempo da Polaroyd - , me sentia cada vez mais distante. Tanto que sequer tive coragem de pedir emprestada deles pra "dar uma volta".
O peso sobre as pálpebras vinha da certeza de que não podia dar prioridade a isso em detrimento de... nada! Porque não conseguiria construir nenhum argumento justificável.
Toda dor vem do que não se justifica, sabe? É. Dói o que não tem porquê, ou não parece ter.
O que não pode ser entendido, aceito, elaborado. A partir do momento em que há símbolos que respaldem, a dor já não alcança mais a alma.
E o texto também doía...
Há alguns dias me inquietava por já poder vir ao mundo consciente e por um motivo bem pequeno e simples: 8.3 mega pixels, eu agora tenho uma câmera.
Sei que ainda vai demorar um tempão pra conseguir ter fotos que façam algum sentido, que expressem algo além do meu vislumbre pela imagem que quase sempre não é a que meu espelho interior me mostra e, talvez demore muito mais pra eu visitar os cenários e estar com ilustres companhias fotografáveis, mas agora o problema deixou de ser bytes, entende?
Não? Ok.
Depois teremos fotos melhores.

P.S. 1.
Tirei recentemente uma foto só pra saber que existiu...
Mas é dessas que não se pode revelar.


SnowFlake

quinta-feira, novembro 27, 2008

Noite

Eu acho que nasci para a madrugada.
O silêncio da noite, com ou sem solidão, me acalma.
Escrevo de noite, durmo de noite, vivo o dia inteiro esperando pela noite...
Ficar sozinha é um momento escuro...

E, por vezes, cheio de estrelas.

Snow, Flake.

Olho do furação

Alguma coisa na minha noção de tempo sutilmente mudou.
Passou-se o tempo em que achava que tinha que correr. E já corri tanto... e vejo que em muito pouco adiantou e que eu não cheguei à frente do que poderia ter chegado se tivesse tido um pouco mais de calma.
Sabe quando você tem a lucidez de compreender que daqui a 24 horas será um novo dia e o Sol nascerá novamente e tudo o que puder acontecer terá acontecido se precisar acontecer...? É assim.
Dessa forma o tempo dói bem menos.
Eu me sinto mais jovem agora do que a impressão que tinha há 10 anos quando achava que tinha ainda muito que fazer e tinha um terrível medo que não desse certo, que não desse tempo, que não conseguisse, enfim, resolver.
Imagino que alguém que não me conhece bem pense que estou falando de felicidade. E que alguém que me conheça pense que estou falando de amor. Mas me refiro a algo que considero o contrário: a calmaria.
Mas ou menos como dizem que é a paz que se sente e que é antecedente do ato final de morrer. A tranqüilidade que só a fatalidade traz.
O mundo continua caindo ao meu redor, sabe? Tive um desconto esse mês no meu $ que acho até que vou passar fome! Rs. Calma. Não é uma fome como a fome é realmente. É uma fome moderna. Diferente dos tempos de antigamente em que já fui muito pobre e as coisas já foram muito piores.
Mas eu prefiro a fome ao frio.
E se existir mesmo o inferno, imagino que seja um lugar gelado. Sem edredom nem companhia e... um pouco mais severo do que foi o meu último inverno.
Por falar em tempo ruim, um dos invernos mais rigoroso de minha vida foi lá pelos meados de 93, quando minha avó mudou-se para o interior e levou minha irmã e eu fiquei morando com minha mãe e padrasto...
Nessa época eu conheci um lindo rapaz que morava numa rua vizinha e que ficou desempregado. E deu pra vender as coisas que tinha em casa. Jogava no bingo e parecia que nunca ganhava. Vendeu tudo. Por ultimo um botijãozinho com uma boca de fogão em cima que ofereceu lá em casa. Mas não compramos. Porque também não tínhamos.
Uma vez, de tanto insistir, permiti que me desse um beijo no rosto. Mas a sensação da língua quente em minha pele e um turbilhão vertiginoso de sensações incontinentes e incompreensíveis me fez afastá-lo com um empurrão... E um tapa.
Depois foi dado como morto e só veio a reaparecer quase um ano mais tarde, mais magro e ainda vendendo coisas. Só que dessa vez, já também roubava.
Ele ainda me pediu outras tantas vezes em namoro, porém aos 15, tenho que reconhecer que a inocência me salvou do que, não fosse, eu teria sido facilmente predada...
Pelo mesmo monstro que fez com que seu corpo aparecesse meses depois, cravado de balas, num lugar chamado Saramandaia...
Nesse tempo a vida foi um temporal imenso.
O mundo perde um pouco da beleza quando a gente enxerga as coisas com menos fé, como menos emoção, é verdade. Não deve haver progresso sem prejuízo da arte. E não há melhoras sem que uma série de pioras cresça em torno das coisas novas. Assim pensava Nietzsche.
Nunca esteve tão distante o colorido da vida. Mas nunca isso doeu tão pouco.
O tempo trouxe a certeza de que o tempo continuará passando. Até que se acabe o meu tempo.
Aliás, o tempo como percebemos só existe mesmo dentro da cultura humana. Não é um elemento puro, natural. O Sol não tem pressa pela pontualidade de chegar ao trabalho. Ele apenas vem. Vai... E nós o acompanhamos. Da mesma forma como a lua, as estações do ano.
O meu Samsung mobile que ganhei da última visita de minha irmã ao Brasil veio com um joguinho que gostei muito: Paris Hilton’s Diamond Quest. É uma mistura de Tetris com Jogo da Memória, só que mais colorida e dividida em puzzles com algumas premiações. Mas a versão free só permite que eu jogue 57 segundos dos 3 minutos que são o default para cada fase.
Já tentei comprar a versão full diversas vezes, mas parece que eles entendem que os meus Reais não são Pounds e meu pedido é sempre negado.
Mesmo assim eu jogo. Sempre. E, às vezes, pelo cansaço da máquina ou por uma velocidade de pensamento excepcionalmente viciado ou ajudada pela sorte, eu até venço.
Já joguei quase 40 horas dividas em tempos impreterivelmente cortados automaticamente aos 57 segundos e, como as fases vão ficando cada vez mais difíceis, calculei que é mecanicamente impossível que eu continue avançando de fase.
Desse tempo todo que brinco, quase sempre madrugadas insones ou caminhos de ônibus, aprendi que este jogo não tem nada, absolutamente nada o que ensinar pra humanidade. Mas apesar disto, uma vez eu fui tão bem numa partida que apareceu a personagem da Paris me dizendo algo que traduzi como: “Você é tão rápida que merecia uma multa por excesso de velocidade!”.
Não pude evitar o riso.
Não é porque algo não se propõe a ensinar que não se poderá com ele aprender. E mesmo esse meu passatempo inútil me disse com a acuidade de um sábio que não há como impedir, e não importa o que você faça, se jogou bem ou teve azar, se está ganhando ou perdendo, num certo momento... o tempo acaba.
E assim, daqui a mais 15 serão 45. depois 60, 75... quem sabe, 90! Ou talvez alguns dias mais, horas, min.! Rs. Quem sabe...?
Estou vivendo um dia de cada vez. E sempre que lúcida, com bastante calma.
As coisas que até aqui dei valor nessa vida, como o mar, o nascer da lua, o pôr-do-sol, os amigos, os humanos, o amor... elas não sofrem assim tanta influência nossa como as vezes sentimos.
Algumas vão continuar acontecendo sempre como sempre aconteceram. E outras, o acontecimento ou manutenção dependerá muito menos de quaisquer de nossas ações que dos ventos aleatórios do acaso.

Com o tempo a dor que fica é saber que cada vez mais a soma dos acontecimentos dói cada vez menos.


Snow, aos 30, depois de anos e anos.

P.S. Enquanto eu escrevia este, emprestei o celular pro meu sobrinho brincar. Ele, sem querer, deletou a Paris.

terça-feira, novembro 11, 2008

Anestesia

O meu dentista novo tem qualidades e defeitos como todo ser humano. Os anteriores só tinham um ou outro aspecto e se em um nuances de outro, sempre discretos. Mas este de agora tem tudo muito bem ressaltado.
Primeiro ele quase não fala. E quando abre a boca não deseja ser ouvido. Isto para mim é um defeito gravíssimo! Estressa-me, me deixa nervosa. Só de pensar, meu dente já dói.
Depois, ele marca minhas consultas toda semana e às vezes até duas vezes por semana! (Antes eu só era atendida um vez no início do mês e outra no final do mês seguinte. E me diziam que era regra do plano...). Então eu vou pra tudo o que ele marca, e sorrindo.
Aí vem que ele trabalha sozinho. Não tem isso de auxiliar, assistente ou instrumentista na sala pra esterilizar, pegar a luva ou fazer amálgama. Ele mesmo faz tudo! Muito melhor. Menos gente a observar nossos ridículos.
A secretária dele é um amor. Sabe meu nome, liga pra eu não perder o dia da consulta, pra marcar a próxima e pra colocar o papo em dia. Rs. Quando eu chego ela abre um lindo sorriso e conversa sem parar. Compensa até a afonia do dentista.
Ele, por sua vez, não gosta muito de anestesiar. E ao invés de tomar uma picadinha de agulha eu tenho quase sempre que sentir o frio do motor perto de minha polpa e fazer o possível para conter o impulso de esmurrá-lo, já que meus dentes são muito sensíveis - e nisso puxaram a dona. Ele diz que não justifica tomar uma furada (usa este termo) para uma intervenção tão pequena.
Mas tenho que confessar que ele é muito rápido mesmo. Quando você pensa que mandou abrir a boca só pra olhar, ele já está com seu dente em uma das mãos e com a outra faz a sutura. Isso é bom porque as dores rápidas passam rapidamente também.
Ainda ontem eu tive uma dessas experiências depois de pedir até pelo amor de Deus pra que me anestesiasse e ele não ter acatado. Uma lágrima quase escorre enquanto eu gemia e me contorcia naquele divã maldito ouvindo o som do motorzinho congelar minha espinha e me provocar impulsos involuntários enquanto ele dizia:
- Eu não acredito nisso! Não acredito mesmo. Eu não acredito que você esteja sentindo essa dor toda. Eu tô vendo aqui! Não é profundo. Ah, eu não acredito!
Quando terminou eu parecia ter saído de uma sessão de choque elétrico. Contente, claro! Menos uma cárie em minha vida e mais próximo está o dia de comer chocolate. Mas os meus cabelos... lá em cima!
Medo. Angústia. Agonia.
Havia passado a dor fina.

Há algo nesse meu tratamento que me remete a um elemento humano dos mais primitivos. Eu realmente entendo quando o doutor diz que não acredita.
O ser humano tem mesmo essa dificuldade de acreditar no que ele não sente. E isso em todas as esferas da vida. Da mesma forma que para as coisas que sente ele, frequentemente, supervaloriza.
O doutor não acreditou na minha dor porque não a pôde ver, é verdade. Os olhos, a visão é um dos sentidos mais obedecidos. E até o coração deixa de padecer quando eles não vêem... (Sempre penso nos cegos quanto a isso.)
Eu também sou assim. Digo não sempre que não acredito. E eu só não acredito quando também não sinto.
Semana passada um rapaz me pediu em namoro. (É, ainda existe isso!). Quarenta e seis anos, divorciado, funcionário público, mora sozinho, filhos crescidos. (Essa descrição social me pareceu mais precisa que a dos meus sentidos.)
Mas era festa... Casamento de um amigo, lá depois de algumas horas de brincadeiras, alguns copos de cerveja, madrugada alta, música e duas doses de Wisky. - Eu não. Por causa do ante-inflamatório dado o novo gesso no pezinho.
Devido a insistência pela resposta precisa, disse-lhe um sonoro “não”, embora polido. E como instantaneamente ele emudeceu, estremeceu e desmanchou-se inteiro sob meus olhos eu o expliquei que era por causa das circunstâncias e não por ele que eu dava aquela resposta. Não era pessoal, apesar de parecer. Não significava que ele não podia verdadeiramente sentir algum afeto por mim ou algo mais, mas ali, sob aquela atmosfera, eu simplesmente não conseguia validar nada daquilo.
Os noivos passaram, um colega do lado brincou, o garçom encheu os copos, alguém trocou o disco... Ele parou um pouco. Lembrou-me que era tudo uma brincadeira e em seguida pediu licença para ir ao banheiro. Necessidade orgânica de desfazer-se do álcool ingerido.

Ou, quem sabe o pudor de não gemer nem lacrimejar por sentir a ponta do motor fria sobre o nervo exposto e ainda assim ouvir de mim o que por mais sincero pareceria sarcástico:
-Me desculpe, mas eu não acredito.


Snow, sobre certas dores invisíveis.

segunda-feira, novembro 03, 2008

Busca

Sobre a pauta branca rabisca o que arriscaria ser a solidão
Às duas da manhã de um dia morno
E mais uma despedida.
Mexe na gaveta, rasga um papel impresso, dá adeus a outro sonho
E o sono não vem ainda.
Conhece de perto essas noites de silêncio
Sabe de cór o cheiro dos muitos perfumes das suas loções, cremes e produtos de beleza espalhados pela penteadeira...
Nada se move a não ser ela mesma
E agora esta caneta.
Houvesse amor, faria sentido
Mas nem isso.
Só uma tentativa frouxa e sem direção de poema
Tal qual os seus pensamentos...
O coração bem que podia parar agora, sem emoções maiores
Ou os olhos se fecharem num sono profundo pra acordar outro dia, quase sem seqüelas.
Mas secretamente ele bate
E sem que ninguém veja, permanecem abertos.
A ausência enche cada cômodo e impregna cada utensílio, cada fresta, cada objeto vermelho
Enquanto a falta enche os pulmões e a atmosfera
E o gosto do nada impera.
Pra enganar o relógio relê papéis amarelados, revê cadernos, folheia velhas agendas
Encontra uma foto perdida, junta às outras, reencaderna.
Procura por um poema do passado, uma carta de amor não lida, o esboço para uma tela
Talvez, dentro de outras folhas soltas, haja algo que não mais se lembra
Com um projeto não cumprido, um sonho que já tivera
Quem dera encontrasse asas ou quem sabe raízes!
Já que não se reconhece nos papéis recentes...

E em meio a antigos escritos, procura por ela.


SnowFlake

sábado, outubro 04, 2008

Outro

O velho amor é um menino...
Que a gente já pegou no colo, já viu chorar, já acalantou tantas vezes...
O velho amor cresceu.

Mas parece que ainda é o mesmo.


Snowflake

domingo, setembro 28, 2008

São tantas coisas...

A vida é um montão de coisas pequenas amontoadas.
(Coisas grandes também são coisas pequenas.)
Eu ando observando uns moradores de rua com suas bagagens há algum tempo...
Eu que não gosto de carregar coisas quando saio, mas sei que a quantidade de coisas que levarei dependerá sempre do tamanho da bolsa que vou escolher, fiquei pensando nos que têm que levar consigo o seu próprio cobertor-colchão, sua própria latinha-panela e a roupa... junto com o frio, a fome e a sujeira. E o cachorro.
Faz alguns meses assisti à reportagem sobre um morador de rua que passou num concurso público. Ele estudava com livros de bibliotecas públicas, em praças também públicas.
À época fiz inúmeras imagens dessa notícia tão cheia de lacunas quase inimagináveis e, confesso que só não tive inveja porque ele agora é funcionário do Banco do Brasil e eu, definitivamente, odeio contar dinheiro.
Mas eu sei que ele agora é parte do grupo dos que podem ter coisas.
O que fez com que essa história ficasse gravada em minha memória emotiva foi quando na entrevista o repórter perguntou o que ele mais queria ter das coisas que ele agora podia e de pronto ele respondeu: "Quero formar uma família.".
E eu que assistia à reportagem toda preocupada com a reação dos colegas dele na agência e das pessoas freqüentadoras e em como seria para ele conviver com essa evidência de constrangimentos e ter que ir todo esse primeiro mês, mesmo sem o dinheiro do transporte, trabalhar e voltar...( pra onde?!) tocar de roupa (?!), já estava me sentindo o mais impotente dos seres por morar em outro estado e não poder fazer nada por aquele que eu sabia que tanto precisava, percebi, assustada como se fora novidade, o quão insignificantes e pequenas são as coisas depois que a gente passa numa prova.
Recentemente um casal dentre os que considero como melhores amigos que já tive e tenho, nesse caso há quase 18 anos, esteve separado por algumas semanas. E eu acompanhei o conturbado processo quase como um dos filhos, dividida e sem tomar partido.
Mas hoje fomos à praia, como nos velhos tempos...
Durante todo o caminho da ida minha cabeça quase doía de tão cheia das tantas imagens dos momentos bons e das brigas nesse tempo todo que têm em comum. E ver como isso se misturava às imagens do momento quando no fim do dia ela reclamou por ele ter colocado a fralda suja de areia na mesma sacola que a mamadeira e de como ele aceitava os carinhos como quem recebe massagens onde está doendo. Era visível que eles estavam se perdoando.
Outra cena marcante foi quando ela comentou, longe da presença dele, e relembramos o dia em que há 12 anos atrás ele chegou em casa com uma televisão preta e branca de presente para ela. Nessa ocasião a alegria foi tanta que passaram a noite inteira assistindo a TV. Usada, comprada com uma renda de um salário mínimo, sabe-se lá em quantas parcelas...
Outra parte interessante foram os vendedores ambulantes das praias com seus amendoins, castanhas, ovos de codorna e caldos, todos afrodisíacos. Este último tinha também a versão homem-aranha, que é quase explícito mais ele explicava: “É pra subir pelas paredes e ir parar no teto!”. Compramos todos. Ora pelo marketing, ora pelo gosto. Mas cá pra nós, eu adoro essas superstições regionais/locais e acho em tudo isso uma graça indescritível.
Alugar a bóia e ficar boiando com a mãe e os maiores também foi muito divertido. (Eles têm, além de mim, mais quatro crianças.).
Foi boa a praia como a praia da minha infância.
Há, porém um link entre essa história e a do ex-mendigo do início. A principal exigência nupcial do novo contrato foi, recíproca, que ela, ocupante de um cargo de confiança, equiparada a servidora pública e, portanto funcionária do estado, deixasse o emprego. E assim foi feito.
Saiu com a roupa do corpo, sem se despedir ou assinar o destrato. Sequer esvaziar as gavetas.
No final do dia de sol, eles, que passaram a maior parte passeio sob a sombra protegendo o menorzinho, voltaram com seus pertences, sacolas, mochilas e filhos pra casa.
E eu, que passei boa parte do tempo exposta (porque não acho isso todo dia!), guardei na bolsa o meu protetor solar, cartão de crédito, soro fisiológico, bolsinha para moedas, telefone celular, chapéu, creme para pentear, cartão de meia-passagem, estojo para lentes, espelho e pente, hidratante, bronzeador, óculos de sol e toalhinha.
Fiquei pensando em como faz calor nas noites pós praia...

E voltei pra casa só. Eu e minha marquinha.

Snow, pensando em comprar um cachorro.

quinta-feira, setembro 25, 2008

Três saídas

Para o Complexo de Édipo no sexo feminino:

A maternidade,
O Complexo de Masculinidade,
E a insatisfação.


Snow, by cadernos de psicanálise.

Defesa Pessoal

Engessei o pezinho direito semana passada depois de uma aula em que tive que chutar... e o meu oponente tinha barras de aço no lugar das pernas.
Depois dos remédios e repouso, ainda sinto um pouco.
O médico aconselhou água quente. O mestre, gelo.
Tomasse whisky, haveria um meio termo.
Mas eu quase não saio, eu quase não tenho amigos...
Eu dou certo valor pr’essas coisas acidentais – que podem acontecer vez em quando e nos fazer dar valor a outras coisas que acontecem sempre e que nem sempre percebemos – se são leves. Como tomar banho com a perna presa num saco isolado com durex e ter que freqüentar a lan mais próxima e ir dormir na casa da mãe, na cama do sobrinho, com o gato querendo entrar no mosquiteiro...
Alem do quê, tem um sabor de quase vitória mandar um recado via sms avisando que não irei pro treino porque to contundida. (rs)
E estar tão inevitavelmente presa a um determinado problema que os demais têm que ficar pra depois, como se fossem pequenos.
Eu gosto um pouco mais disto que de estar envolvida em grandiosos projetos dos quais faculdades, mestrados e especializações são exemplos.
Sabe essas pessoas que dizem que, no momento, estão apenas preocupadas com suas carreiras profissionais e seus estudos e não querem saber de relacionamentos?
Eu desconfio sinceramente que a causa disso tudo é um amor inconfessável e que não pôde ser substituído e por isso teve que ser engessado, imobilizado.
Dessa forma, a função dos analgésicos, paliativos e placebos é a mesma: dissipar a dor e permitir que o corpo cure sem fazer muito esforço.
Pra não romper os ligamentos.


Snow, já sem ataduras, mas ainda sob compressas. Ora frias, ora quentes...

Ilustração dispensável

- Quero te ver, posso passar aí?
- Ah, não, não posso! Tou machucada.
- Que houve? É sério?!
- Não, nada grave. Mas eu to com gesso.
- Ok, tudo bem. Melhoras. Eu entendo...

sexta-feira, setembro 19, 2008

Mais um dos outros

Não Basta Amar
(Artur da Távora)


Aos que não casaram,
Aos que vão casar,
Aos que acabaram de casar,
Aos que pensam em se separar,
Aos que acabaram de se separar,
Aos que pensam em voltar...


Não existem vários tipos de amor, assim como não existem três tipos de saudades, quatro de ódio, seis espécies de inveja. O amor é único, como qualquer sentimento, seja ele destinado a familiares, ao cônjuge ou a Deus.

A diferença é que, como entre marido e mulher não há laços de sangue, a sedução tem que ser ininterrupta. Por não haver nenhuma garantia de durabilidade, qualquer alteração no tom de voz nos fragiliza, e de cobrança em cobrança acabamos por sepultar uma relação que poderia ser eterna.

Casaram. Te amo pra lá, te amo pra cá. Lindo, mas insustentável. O sucesso de um casamento exige mais do que declarações românticas. Entre duas pessoas que resolvem dividir o mesmo teto, tem que haver muito mais do que amor, e às vezes nem necessita de um amor tão intenso.

É preciso que haja, antes de mais nada, respeito. Agressões zero.

Disposição para ouvir argumentos alheios. Alguma paciência... Amor, só, não basta.

Não pode haver competição. Nem comparações. Tem que ter jogo de cintura para acatar regras que não foram previamente combinadas.

Tem que haver bom humor para enfrentar imprevistos, acessos de carência, infantilidades.

Tem que saber levar. Amar, só, é pouco.

Tem que haver inteligência. Um cérebro programado para enfrentar tensões pré-menstruais, rejeições, demissões inesperadas, contas pra pagar.

Tem que ter disciplina para educar filhos, dar exemplo, não gritar. Tem que ter um bom psiquiatra. Não adianta, apenas, amar. Entre casais que se unem visando à longevidade do matrimônio tem que haver um pouco de silêncio, amigos de infância, vida própria, um tempo pra cada um.

Tem que haver confiança. Uma certa camaradagem, às vezes fingir que não viu, fazer de conta que não escutou.

É preciso entender que união não significa, necessariamente, fusão. E que amar, "solamente", não basta.

Entre homens e mulheres que acham que o amor é só poesia, tem que haver discernimento, pé no chão, racionalidade. Tem que saber que o amor Pode ser bom, pode durar para sempre, mas que sozinho não dá conta do recado.

O amor é grande, mas não é dois. É preciso convocar uma turma de sentimentos para amparar esse amor que carrega o ônus da onipotência. O amor até pode nos bastar, mas ele próprio não se basta.

Um bom Amor aos que já têm!

Um bom encontro aos que procuram!

E felicidades a todos nós!

domingo, setembro 14, 2008

Quem sou eu:

Áspera, intolerante, rancorosa, vingativa.
Minha avó dizia que eu era ruim. E tinha lá suas razões.
Eu não sei continuar como se nada tivesse acontecido. Assim, simplesmente. Porque quebra. Eu quebro. Menos por ser frágil e mais por ser rígida. Inflexível.
Falta de rola. Deve ser.
Tivesse, tava tudo resolvido. Mas nasci sem. E nem gosto de Freud, mas mijar em pé me parece muito mais legal que a dor de parir.
Se bem que ela me disse que depois q nasce, passa...
Não sei bem como começou esta conversa, mas tive a impressão que era pra me ensinar... Eu que àquela época já brincava com fogo.
Pra Psicanálise, do pouco que eu sei, a gravidez é a única das três saídas que realmente resolve a mulher. As outras duas eram... hum... ter uma vida independente e uma carreira profissional bem-sucedida e... a terceira não lembro.
(Assim que rever meus cadernos eu posto como comentário. Perdoem a sacanagem de não dizer ainda, não foi premeditado.)
E não deve ser importante, de certo.
Importante foi ela ter me dito q preferisse normal à cesariana, porque está última é bastante dolorosa depois e nesse meio tempo já haverá mais alguém precisando de mim, dos meus seios fartos e doridos, prontos pra alimentar a nova vida...
Antes eu não entendia bem porque as pessoas tinha filhos assim, por acidente. Mas agora sei que, se você pensar bem, você não os tem. Criança é coisa séria. E é por pensar assim que talvez eu nunca tenha filhos.
Aliás, dependesse de mim, eu mesma não existiria. Nem eu, nem ela. Nem a mãe dela. Nem a avó de nós duas. Nem o resto da galera.
Deixava vingar só os mais recentes, os que estão nascendo por agora. Os que de alguma forma nós podemos cuidar.
Queria poder mais. Mas eu não estudei... (rs)
De um modo geral, ninguém se importa muito com ninguém. Melhor, muitos, pouco se importam até mesmo consigo.
A espécie tá aí e tal, mas como a vida de cada um é curta, então pra quê, né mesmo?
Recentemente decidi que vou ser juíza. Recentemente ando muito ressentida com o julgamento dos outros sobre outros que em nada afetam as suas vidas.
(Até agora tô tentando lembrar qual era a terceira saída e porque mesmo que eu achei que de forma alguma poderia me servir, e nada!
Engraçado. Como eu ainda não me enquadro em nenhuma das outras duas pode ser justamente nela que tenha me perdido.)
Das aulas de Psicanálise uma coisa ficou gravada em minha memória: todo mundo só vê o que quer e só ouve o que quer. Não importa o que você mostre ou o que você diga.
Isso explicaria aquela ternura por alguns dos que nos agrediram que talvez a gente admita ter sentido ao menos uma vez na vida. E aquela raiva, aquele desprezo por alguns que se deram por nós enquanto poderiam muito bem cuidar de suas miseráveis vidas.
Uma coisa que gosto nas músicas que falam sobre violência é que a subjetividade parece ser um pouco mais objetiva. Eu até queria que a dor do outro ocupasse um pouco mais de espaço na minha vida que estas que agora sinto. Todas mesquinhas e evasivas.
Queria morrer antes de todos pra não ter que ver alguns irem antes de mim... Digo isto assim, embora me preocupe com o que vão pensar, mas me acalma a leve desconfiança de que no fundo, todos desta raça são potencialmente suicidas.
Queria ir primeiro porque a dor da despedida é para mim a mais agonizante de todas... Nascesse no Oriente, fosse indígena ou espiritualista não teria este pensamento. Mas cultura é algo que nos faz humanos. Tal qual o sangue...
Eu sei que tudo o que aconteceu em minha vida foi aglomerante, agregado e liga pra o que eu sou hoje e eu gosto disso. Ao mesmo tempo em que lamento estar assim... Tão amarga e tão agressiva.
Há dois meses comprei uma dose de testosterona no mercado negro. (Um negão, meu brother, me deu a dica.). Tava a fim de engrossar essas minhas perninhas tortas e finas para com as quais já tentei muita coisa nesta vida, mas... (suspiro!), tem que ter mais persistência que problemas pra fazer algum efeito.
Não tive coragem de tomar ainda.
Uma desculpa que me dei foi o fato do meu cabelo estar caindo muito depois da escova progressiva. Daí sonhei comigo careca, com a voz grossa e o peito cabeludo...
(Relendo este último parágrafo entendi que se não postar isto imediatamente corro o risco de apagar tudo. Até no sonho eu sou má comigo! rs)
E meu cabelo tá tão lindo...
(Rafael foi o único que achou horrível. Mas talvez tenha mais gente nesse lado da torcida. As pessoas não costumam ser muito sinceras quanto a isso e, quer saber, eu acho que não precisavam ser. Porque por mais que existam motivos, eu não vejo nenhum bom motivo.)
A segunda razão pela qual não tomei ainda foi essa minha, esse meu... esses. Esses meus dois culhões que eu mantenho a sete chaves escondidos no meio das pernas, camuflados em forma de periquita.
(Rs. Vou botar uma censura nessa porra! rs. Se bem que por aqui, nunca veio nenhuma criança.)
Eu tive medo, sabe? Medo que a testosterona revelasse o homem que há em mim e que eu sei que é primitivo. É agreste, é grosso, é ignorante, é brabo. Não come reggae, vai pra cima e mete mermo sem dó. Tá nem aí pro que sobra.
Ele me assusta.
Outro dia deu um chute no saco de boxe do Goshin Jitsu que na mesma hora meu pezinho ficou todo vermelho. Dia seguinte, mal me equilibrava no salto.
O motivo prático pelo qual não tô ainda bombada é esse meu problema primário com comida que, já agendei o psicólogo em caráter de urgência. Não adiantaria nada abrir o apetite, ter fome e, por isso mesmo, sentir raiva de comer. Mas isso é papo pra outra blogada.
Tirei o link daqui do perfil do Orkut. Isso explica um pouco essa minha maior descontração por aqui. Nesses quatro anos de blogagem raríssimos vieram de lá. E eu que mantinha certa compostura a despeito dos eventuais desconhecidos, acabei por resolver o problema.
Tirei também todas as outras informações desnecessárias. Cada um só vê o que quer mesmo e, desses, alguns ainda vão fazer questão de te mostrar o que enxergam... Então, melhor não dizer nada.
Mudei a parte do relacionamento. Informei que sou casada.
Não sou. Todos sabem. Não há aliança, não há papel passado nem presente, não há relacionamento, não há nada.
Eu não sei mesmo explicar porque fiz isso. Tenho várias respostas. Nenhuma casa.
(Deve ter a ver com a tal da terceira saída que não lembro! rs. E que deve tar pulsando ainda.)
E o restante deve ter vindo por ter assistido recentemente a primeira faixa do DVD novo de Ana Carolina.
Lamento informar-lhes, mas não sou esse macho todo. Tava apenas inspirada.
Aos que ficaram com dúvidas, também não sou viada.
(No rol da minha quase meia dúzia de leitores, sei que mais da metade não lê textos grandes, então, creio que não haverá muita repercussão. Tomara!)
Quando comecei a escrever tava pensando em que diferença faz dizer que se é forte ou frágil...
Que diferença faz a gente ser um e se esforçar pra moderar o outro que também se é?
Que diferença faz o que a gente é pros outros?
...
Só faz diferença mesmo pros outros o que os outros acham que a gente é. Porque é apartir do momento em que eles começam a achar o contrário que as coisas mudam.
Já a gente, nós mesmos, a gente pode ser dar ao luxo de odiar aquela meninazinha nhe-nhe-nhe e aquela galerinha lá gente boa pá caralho.
Só a gente mesmo pra curtir aquele sacana, aquele cara lerdo, miserável, canalha.
Só a gente pra gostar daquele arrogante, amar aquele otário.
A gente não gosta ou desgosta por mérito ou demérito alheio, isso pra mim já tá mais do que comprovado.
Então, sinceramente, eu não posso ficar me stressando com essas pessoas todas.

Eu vou ficar gostosa, de cabelo grande, e vou ser juíza. Na próxima década, antes que eu morra. Vou começar agora!

Depois vejo isso dessas coisas psicológicas.


Snow, indócil.

quarta-feira, setembro 10, 2008

30 Dicas para Escrever Bem

(Professor João Pedro da UNICAMP)


1. Deve evitar ao máx. A utiliz. De abrev., etc.

2. É desnecessário fazer-se empregar de um estilo de escrita demasiadamente rebuscado. Tal prática advém de esmero excessivo que raia o exibicionismo narcisístico.

3. Anule aliterações altamente abusivas.

4. não esqueça as maiúsculas no inicio das frases.

5. Evite lugares-comuns como o diabo foge da cruz.

6. O uso de parêntesis (mesmo quando for relevante) é desnecessário.

7. Estrangeirismos estão out; palavras de origem portuguesa estão in.

8. Evite o emprego de gíria, mesmo que pareça nice, sacou??...então valeu!

9. Palavras de baixo calão, porra, podem transformar o seu texto numa merda.

10. Nunca generalize: generalizar é um erro em todas as situações.

11. Evite repetir a mesma palavra pois essa palavra vai ficar uma palavra repetitiva. A repetição da palavra vai fazer com que a palavra repetida desqualifique o texto onde a palavra se encontra repetida.

12. Não abuse das citações. Como costuma dizer um amigo meu: "Quem cita os outros não tem ideias próprias".

13. Frases incompletas podem causar

14. Não seja redundante, não é preciso dizer a mesma coisa de formas diferentes; isto é, basta mencionar cada argumento uma só vez, ou por outras palavras, não repita a mesma idéia várias vezes.

15. Seja mais ou menos específico.

16. Frases com apenas uma palavra? Jamais!

17. A voz passiva deve ser evitada.

18. Utilize a pontuação corretamente o ponto e a vírgula pois a frase poderá ficar sem sentido especialmente será que ninguém mais sabe utilizar o ponto de interrogação

19. Quem precisa de perguntas retóricas?

20. Conforme recomenda a A.G.O.P, nunca use siglas desconhecidas.

21. Exagerar é cem milhões de vezes pior do que a moderação.

22. Evite mesóclises. Repita comigo: "mesóclises: evitá-las-ei!"

23. Analogias na escrita são tão úteis quanto chifres numa galinha.

24. Não abuse das exclamações! Nunca!!! O seu texto fica horrível!!!!!

25. Evite frases exageradamente longas pois estas dificultam a compreensão da idéia nelas contida e, por conterem mais que uma idéia central, o que nem sempre torna o seu conteúdo acessível, forçam, desta forma, o pobre leitor a separá-la nos seus diversos componentes de forma a torná-las compreensíveis, o que não deveria ser, afinal de contas, parte do processo da leitura, hábito que devemos estimular através do uso de frases mais
Curtas.

26. Cuidado com a hortografia, para não estrupar a língúa portuguêza.

27. Seja incisivo e coerente, ou não.

28. Não fique escrevendo (nem falando) no gerúndio. Você vai estar deixando seu texto pobre e estar causando ambigüidade, com certeza você vai estar deixando o conteúdo esquisito, vai estar ficando com a sensação
De que as coisas ainda estão acontecendo. E como você vai estar lendo este texto, tenho certeza que você vai estar prestando atenção e vai estar repassando aos seus amigos, que vão estar entendendo e vão estar pensando
Em não estar falando desta maneira irritante.

29. Outra barbaridade que tu deves evitar chê, é usar muitas expressões que acabem por denunciar a região onde tu moras, carajo! ..nada de mandar
Esse trem...vixi..entendeu bichinho?

30. Não permita que seu texto acabe por rimar, porque senão ninguém irá aguentar já que é insuportável o mesmo final escutar, o tempo todo sem parar.


***
Snow, que nessa parte da rima... discorda com moderação.

P.S. Não me sinto a vontade pra assinar nada q não seja totalmente meu, embora acredite que nada, absolutamente nada, seja totalmente de ninguém. Mas assino sempre, pq esse espaço aqui só existe para q eu lembre o porque de alguns textos existirem.
Senão seria só mais uma coisa q se diz sendo repetida e eu teria q mudar o nome para Bytes Deletáveis.
Eu gosto de dizer coisas sobre coisas q me disseram.
Um pouco pq sou de pensamento lento, embora intenso, e tenho respostas demoradas pra pergunats curtas. E outro tanto pq, se não registrar, tenho a impressão evapora... no calor das retóricas.
Esse texto eu li pela primeira vez numa apostila pra concurso. Sem fonte, sem autor, incorporado à explicação de uma forma q achei injusta. Ficou a idéia encontrar depois e aqui está.
Embora nesses tempos de internet nem sempre é possivel dizer se a informação encontrada é a verdade ou se esta está expressa na íntegra - e confesso q não me dei ao trabalho de investigar -, ao menos uma referência, e o próprio texto. Metalinguísticamente belo.
E eu queria q a vida fosse assim de vez em quando:

Auto-explicativa.

Mais ou menos da mesma

Eu deveria ter escrito algo assim há uns onze, doze anos atrás...
Ou quando eu entrei pro Cefet e aquela camisa azul-igual me deixava tão daquela cor...
É uma pena eu não ter fotos sorrindo. Contando hoje ninguém acredita.
Eu não sei nem mais como explicar...
Mas houve uma época em que eu amanhecia lilás

Pra anoitecer verde-otimista.


Snow, num comentário pro post anterior... direto do túnel do tempo.

terça-feira, setembro 09, 2008

Amanhecer lilás

(Felipe Rosa)

E a gente tem ainda tanto sol nessas manhãs que nascem de promessa e de evolução.
A gente tem tanto sangue pra correr que deixa corada a nossa cara de tanto riso e tanta lágrima.
Até lágrima a gente tem pra lavar essa sujeira no mundo que sempre joga uns ciscos nos olhos.
A gente tem tanta vida, tanta melodia, tanto movimento.

A gente tem os melhores dias, as melhores noites e as madrugadas mais felizes e melancólicas indo de volta pra casa...


***

Snow, e um velho saudosismo.

Explicações

Eu me apaixono por valores.
Muitas vezes sem ver - porque quando vou ver já estou apaixonada.
Antes dos valores nunca há nada.
Depois vem a historinha que vou montando em mosaico, de retalhos, quase totem de tão sagrada.
O bom é que, a cada novo tema, os valores saem sempre mais fortalecidos.
E o ruim é ver como eu fico...

Cada vez mais de spe da ç ad.


Snow, comentando ao Acaso.

quinta-feira, setembro 04, 2008

Insônia

Essa noite não dormiu,
Apesar do remédio.

Tinha preocupações maiores do que a dose recomendada pelo médico.


Snow, num atualíssimo. Há dois meses.

Caríssimos

"Eu estou precisando urgentemente de um abraço.
E a dor é tamanha que acho que esse tipo de tratamento deveria ser coberto pelo SUS. No meu caso, iria pra uma UTI.
Mas a você que está lendo, já não é mais permitido ofertar o remédio para este meu sofrimento. Porque o abraço que eu preciso tem que vir sem ser pedido, protocolado, requisitado. E tem que vir de graça, sem ônus, impostos, sem que seja um pequeno investimento... Não pode ser tarifado.
É paradoxo isso de não servir. Eu também acho.
Mas realmente não serve. Da mesma forma que não serve o analgésico do qual se sabe placebo. Em caso isolados, colateralmente, já foi observado até agravamentos.
Só os desabraçados podem imaginar como eu me sinto... Com esses meus dois bracinhos que me parecem imensos. Inativos, posto que não me satisfazem. Sequer tentam.
E um abraço não se encontra numa esquina. E eu não quero nada que não seja expontâneo. Nem pediria. Porque não peço nada cujo prêmio esteja além do próprio pedido... como pedir desculpas, por exemplo. Isso eu peço.
Acredito que o máximo que posso fazer é o pedido. Mas não posso pedir que me peçam, assim como também não aceitaria tal pedido.
O mínimo que peço é desculpas por não poder pedir um abraço e por não aceitar se, de alguma forma, já o houver pedido.
Abraço é dado. Lançado. Na certeza que o maior número de pontos será alcansado."

***

Engraçado, comecei esse texto ano passado, e até hoje não sei como terminá-lo.
Este último não me abraçava pra dormir.
Fechava os braços em posição de guarda como fazem os lutadores e eu ficava do meu canto, indefesa, olhando ele fechar também os olhos, a boca, o corpo, o punho... Ficava imaginando o que faria caso ele acordasse com os meus soluços. Enxugava o rosto, adormecia.
Dia desses revi aquela pegadinha manjada do abraço em que um rapaz sai com um placa escrita "Abraços Grátis" e passeia por uma avenida movimentada. No começo pensamos que ninguém atenderá ao seu chamado, mas no final a gente percebe que a soma dos que se dispuseram foi satisfatória. E ficamos com aquela sensação humana de que, apesar de tudo, valeu a pena.
Há alguns dias meu sobrinho me avistou na rua. Soltou-se das mãos que o conduziam e correu em minha direção pra me abraçar, sorrindo.
Crianças não precisam de placas. Nem as entenderiam.
Mas ontem à noite me senti como aquele homem da pegadinha, andando pelas ruas, pegando filas, esperando ônibus, sempre com a minha plaquinha...

A única diferença entre a minha vida real e a tv é que, por onde eu passava, as pessoas, eu acho, eram todas adultas.
E não sabiam ler.

***

Como esse foi um péssimo jeito de terminar um escrito, vou continuar.
Eu não ando muito bem, deve ser por isso. E sei que ninguém pode ser culpado por não ter aprendido a entender um código que não ensinei...
Vivemos diferenciando as pessoas por não saberem aquilo que aprendemos, por não terem valores semelhantes aos que temos... Somos tão egoístas que por pouco que nos damos acreditamos que deveríamos ser recompensados...
A vida não é assim. Ghandy foi assassinado, Cristo crucificado, Tiradentes foi enforcado... E eu nem sei o que foi feito de Zumbi.
Tive uma conversa difícil ontem pela manhã, um dia pesado, uma noite de pesadelos. Faz já um tempo eu tô querendo um pouco de calma, mas a calma não veio.
Esse texto entre os escritos do ano passado, tava guardando pra concluir de forma otimista, esperançosa... alegre, ao menos. Mas vou guardar agora apenas a minha plaquinha de "Abraços Grátis", ou melhor, atualizá-la para "Abraços Muito Caros", e tentar esquecer um pouco essa minha busca.
(Achar que esquecerei mesmo é querer me enganar, e eu me conheço.)

Vou esperar que alguém que possa pagar,
Um dia me pergunte quanto custa.


SnowFlake.

quinta-feira, agosto 21, 2008

Cotidiano

As estações mudam
As canções também
E até eu mesma...

Vez em quando me calo.


Snow

Novela

A favorita era a assassina. Tive a infelicidade de ver esta cena e, mesmo não tendo acompanhado o folhetim moderno, sentir a infame brincadeira do autor de tentar surpreender a audiência... Como todos os outros autores, a todo o tempo.
Mas este foi mais ousado, pois geralmente o assassino é escolhido dentre os que pouco participavam das cenas e que estava entre os tantos que poderiam ter gravado a cena do crime. Desta vez, a assassina era a que foi feita pra ser julgada injustiçada, e as vitimas, os expectadores que acreditavam que não podia ter sido a que já fora condenada.
Eu, num quarto de hospital, acompanhante de um amigo com suspeita de hepatite, tendo raras opções além da TV, vi com desdém o ridículo ter a audácia de nos fazer sentir ridículos.
Há muito que não assisto novelas. Parei no início da adolescência, período em que não lembrava mais das que vira na infância e de lá pra cá não registrei quase nada. Depois até tentei me habituar à dose de emoção esmigalhada gratuita diária que nos oferecem as emissoras de canal aberto, mas não consegui.
Queria até que tivesse sido por um motivo nobre e intelectual como a soberba de dizer que não assisto porque isso tudo é porcaria, é alienação, é perda de tempo e eu gosto é de cultura, de algo com conteúdo, que me faça crescer intelectualmente, mas não. Meu motivo é bem menos rebuscado.
Não assisto por causa dos autores mesmo. Os mesmos.
Estou cansada das Helenas e Dinorás e Brancas, das que vão ter câncer e raspar a cabeça, dos amores que vão chorar todos os capítulos pra ficarem juntos no final – e agora até que isso ta mudando. Eles podem até ficar separados, como amores para serem resolvidos em outra vida... rs. Nessa onipotência ressurreitiva da repetição -. Estou cansada das crianças trabalhando em papéis quase nunca infantis, das vilãs morrendo queimadas ou indo pra um hospício, como se ficar louco fosse conseqüência esperada por ter sido ruim desde o início. Não agüento mais as gêmeas idênticas, uma boa e outra má, os clones de si mesmos fazendo se passar, os mutantes e tanta gente de olhos azuis e os pretos domésticos, solícitos, escravos ou ladrões...
Eu tenho pena de todos eles. Parece que os autores não.
Meu coração lamenta pelos personagens ali, em cada tomada à mercê da caneta – hoje em dia dos bytes – de um escritor que pouco está aí pra os que garantem a audiência, que dirá pra o elenco... que vai se envolver com drogas, cometer delitos, chorar amores perdidos, se decepcionar, ser injustiçado...
E é sempre assim, se se apaixonam no início eu penso cá comigo “coitados”, eu já sei o que lhes reservam os próximos capítulos. Se se esforçam pra fazer uma maldade atrás da outra, jurar que irão se vingar a qualquer custo, que os antagônicos protagonistas hão de os pagar, eu lamento até mais. Fantoches da caoticidade criativa dos autores nacionais, amigos e rivais.
Faz pouco tempo vi capítulos de uma novela estrangeira, (argentina, o Google me disse), que passou no SBT, pela tentativa do autor de fazer diferente. A trama girava em torno de um homem hetero que por meio de um feitiço, que lhe foi jogado por uma ex-amante, ganhou o corpo de uma mulher e conheceu o que na realidade, apesar das transexualidades, nunca será possível: ver por um outro ângulo permanecendo do mesmo lado e poder imaginar como é um “lado de lá” sem sair do lugar.
Do meio pra o final ela já não queria mais voltar a ser ele e ter o seu verdadeiro corpo de volta e temia, como todos, que o feitiço tal qual começara, alheio à sua vontade se desfizesse. E Lolo não fosse mais Lala...
Não vi o final. Melhor. Posso imaginar o quanto quiser que tudo deu certo (sem consultar o Google, claro.), e que todos, conforme os feitos foram recompensados.
Prefiro isto à certeza de que nada valeu a pena. À consciência de que, de tudo o que foi feito, nada pôde ser aproveitado. Prefiro isto às evidências de que o meu castelo de sentimentos fora construído sem alicerces e sem fundamentos e que, ao sopro dos primeiros ventos tornou-se em escombros, tijolos sem cimento, soltos, sem direção... Ilusões desesperançadas.
Dia seguinte levei pro meu amigo o meu aparelho de DVD comprado há apenas quinze dias da data e ainda não inaugurado. Assistimos a alguns filmes piratas. Levei também um livro pra gente estudar pro TRT, dúvidas e o edital. Chega de TV!

De frustrações, enganos, decepções e traições, basta-me a vida real.


Snow, reprisando-se.

Confissão

Faz já um tempo que eu não te amo.
Porém, só me dei conta disso ontem
Quando a solidão
Sussurrou ao meu ouvido.


Snow

Liquído

Eu queria já ter tido as aulas práticas de psicologia com o ratinho.
Não q eu goste da idéia de deixar o pobre do animal em abstinência só pra fazê-lo puxar cordinhas e tocar bastões, essa parte eu odeio! Mas eu gosto de pensar sobre o valor q damos pras coisas e acredito q uma vida está sempre baseada nos valores q se aprendeu a dar pras vivências das experiências q se teve, no tempo q existiram.
Isso do rato sentir tanta sede a ponto de fazer tudo o que estiver a seu alcance para conseguir água me desperta para um mundo tão complexo e íntimo de abstinências e saceios (é assim q escreve? O Word não reconhece.) que chego a achar que é injusto que eu aprenda mais que ele, a cobaia que de fato sente.
Todos nós temos sedes.
Lembrei agora do que uma amiga me contou certa vez sobre sua infância difícil e da primeira vez que sentiu vontade de comer um biscoito Negresco. Aí depois de um tempo uma colega deu pra ela uma bolachinha do seu pacote e a que há muito desejava provar, maravilhou-se com o sabor e alimentou o sonho de um dia poder comprar um pacote inteiro e comê-lo sozinha.
Isso explicou porque ninguém entendeu quando, adolescente, já trabalhando, pegou seu primeiro salário e comprou vários pacotes de Negresco e, ao abrir o primeiro, saboreou-o deliciosamente como se fora um manjar. Àquela época já havia se passado tanto tempo desde o primeiro desejo, que o biscoito não era mais novidade pros outros e já não estava mais na moda. Já existiam tantos que pareciam melhores que ele e aquele, na verdade, já tinha mudado até de nome...
Eu tenho receios de falar das minhas sedes. Mesmo quando o lugar me parece meu, prefiro dar um exemplo alheio. Falar de um anônimo me parece mais válido do dizer do quanto era precioso para mim aquele detalhe.
Talvez o medo de me ver obrigada a redimensionar as coisas que vejo, da maneira como eu vejo. E ver o quanto a minha sede me impede de observar que a água é um dos recursos mais abundantes do planeta... Mas esse é o meu medo mais modesto.
O concreto é saber – e sei mesmo – que as pessoas outras, tais como os nadadores, os pescadores, os mergulhadores, os navegadores e mesmo aqueles que apenas abrem a geladeira e se servem de um copo d’água quando têm sede, estes jamais entenderão o que eu sinto quando olho pra ela... Nunca poderão compreender o valor que tem pra mim cada gota.
E há ainda o motivo mais egoísta e covarde de todos. O meu medo de que, ao revelar minha sede, estes que ouvem ainda me façam chorar...

E eu seque.


Snow, sobre chuvas de madrugada.

sábado, julho 26, 2008

Receita

(Nicolas Behr)

Ingredientes

2 conflitos de gerações
4 esperanças perdidas
3 litros de sangue fervido
5 sonhos eróticos
2 canções dos beatles

Modo de preparar

Dissolva os sonhos eróticos
nos dois litros de sangue fervido
e deixe gelar seu coração.

Leve a mistura ao fogo,
adicionando dois conflitos
de gerações às esperanças perdidas.

Corte tudo em pedacinhos
e repita com as canções dos
beatles o mesmo processo usado
com os sonhos eróticos, mas desta
vez deixe ferver um pouco mais e
mexa até dissolver.

Parte do sangue pode ser
substituído por suco de
groselha, mas os resultados
não serão os mesmos.

Sirva o poema simples
ou com ilusões.

(Do livro Restos Vitais)

Mérito ou Antiguidade

Embora eu acredite q os meus problemas sejam bastante incomuns com relação aos q me fazem saber dos outros, não acho q minha vida renderia um livro. Há palavras q não pronuncio. E há histórias q não merecem ser contadas.
No mais, uma órfã de tutores q sai adotando entidades e pessoas q passarão o tempo ocupando-se de provar q não merecem tal adoção. (E algumas vezes conseguirão.).
Eu, trato bem a todos. Mesmo os q não merecem ser bem tratados.
Há os q esperneiam feito criança estranhando o colo alheio.
Há os q, sorrateiros, procuram por algo errado. Um desvio, um beneficio ilícito, um interesse oculto... Esses, não acham nada.
Há os q cavam a falta. – Nesse caso eu não hesito em cair. Fora.
Há os pegam o q querem e seguem viagem.
Há os q deixam rastros. Cicatrizes, no caso.
E eu continuo. Não sei como nem por que. Muitos, por muito menos, morrem.
Fico olhando pra tudo como quem sobrevive a uma bomba... q não deixa nada.
Passo dias e noites curando a memória castigada. Já nem sei mais em q ano foi q tirei férias dessas imagens ruins q se renovam.
O psicólogo até tentou. Mas avisaram q eu atraio problemas. E é verdade.
Deve ser pq eu sou boa. Sou simples. De inofensiva aparência. E me recuso a ser áspera e contradizer minha essência.
Trinta anos de ver toda tentativa de construção desmantelada...
Eu não defendo ideais nem ideologias.
Essas coisas perfeitas não existem e, além do mais, eu gosto da existência dos erros.
Errar é característica humana. Só sendo humano pra dar a algo este significado.
Eu defendo pessoas. Já defendi até indefensáveis.
Pessoas são semelhantes. Ideais são de outro naipe.
No passado, em nome de ideais pessoas iam pra fogueira, pra forca, tinham seus pescoços cortados.
Eu defendo os inocentes. Mesmo q tenham pecados.
Eu me baseio em valores. A vida. A paz. A diferença.
A justiça é relativa. E não acredito nela.
Acredito na cor do sangue. Igual em toda raça.
Acredito no sorriso, no abraço.
Eu creio em assinaturas q não têm fé pública.
Eu gosto do sol e da chuva.
E tem um monte de gente q não gosta de gente como eu. Q só ta ali... Não quero vantagens.
No trabalho alguém me elogia por lhe ter tratado bem. E eu tenho receio q esse comentário gere uma sindicância. Pra apurar se eu sou boa mesmo no trato. Ou se é só fachada. Ou melhor, verificar o q eu devo estar querendo ganhar com essa bondade toda...
Estou presa.
Um ano de cadeados e grades.
Faz já um tempão q eu só faço inimizades. Qualquer tentativa extra gera um transtorno tão grande q eu me fecho, cada vez mais.
Esta semana irei a um psiquiatra. Tirar licença médica.

Entrarei para o grupo dos remédios controlados.


Snow, desprovendo-se.