quinta-feira, agosto 21, 2008

Liquído

Eu queria já ter tido as aulas práticas de psicologia com o ratinho.
Não q eu goste da idéia de deixar o pobre do animal em abstinência só pra fazê-lo puxar cordinhas e tocar bastões, essa parte eu odeio! Mas eu gosto de pensar sobre o valor q damos pras coisas e acredito q uma vida está sempre baseada nos valores q se aprendeu a dar pras vivências das experiências q se teve, no tempo q existiram.
Isso do rato sentir tanta sede a ponto de fazer tudo o que estiver a seu alcance para conseguir água me desperta para um mundo tão complexo e íntimo de abstinências e saceios (é assim q escreve? O Word não reconhece.) que chego a achar que é injusto que eu aprenda mais que ele, a cobaia que de fato sente.
Todos nós temos sedes.
Lembrei agora do que uma amiga me contou certa vez sobre sua infância difícil e da primeira vez que sentiu vontade de comer um biscoito Negresco. Aí depois de um tempo uma colega deu pra ela uma bolachinha do seu pacote e a que há muito desejava provar, maravilhou-se com o sabor e alimentou o sonho de um dia poder comprar um pacote inteiro e comê-lo sozinha.
Isso explicou porque ninguém entendeu quando, adolescente, já trabalhando, pegou seu primeiro salário e comprou vários pacotes de Negresco e, ao abrir o primeiro, saboreou-o deliciosamente como se fora um manjar. Àquela época já havia se passado tanto tempo desde o primeiro desejo, que o biscoito não era mais novidade pros outros e já não estava mais na moda. Já existiam tantos que pareciam melhores que ele e aquele, na verdade, já tinha mudado até de nome...
Eu tenho receios de falar das minhas sedes. Mesmo quando o lugar me parece meu, prefiro dar um exemplo alheio. Falar de um anônimo me parece mais válido do dizer do quanto era precioso para mim aquele detalhe.
Talvez o medo de me ver obrigada a redimensionar as coisas que vejo, da maneira como eu vejo. E ver o quanto a minha sede me impede de observar que a água é um dos recursos mais abundantes do planeta... Mas esse é o meu medo mais modesto.
O concreto é saber – e sei mesmo – que as pessoas outras, tais como os nadadores, os pescadores, os mergulhadores, os navegadores e mesmo aqueles que apenas abrem a geladeira e se servem de um copo d’água quando têm sede, estes jamais entenderão o que eu sinto quando olho pra ela... Nunca poderão compreender o valor que tem pra mim cada gota.
E há ainda o motivo mais egoísta e covarde de todos. O meu medo de que, ao revelar minha sede, estes que ouvem ainda me façam chorar...

E eu seque.


Snow, sobre chuvas de madrugada.

3 comentários:

Anônimo disse...

vc falando de sede e eu... parei de beber. de fumar, cheirar, lamber, torcer, acreditar, viver... de leve... eu te compreendo. e é um belo texto.

Anônimo disse...

Pois é, e eu descobri q a lucidez entorpece mais do q a nóia, do q a sede, do q o amor...

Anônimo disse...

se fosse fácil saber, como os ratinhos, do que temos sede... mas a fonte que desejamos, às vezes, são das águas turvas e não das límpidas e cristalinas... assim como muito negresco pode dar dor de barriga.